A ERA DO LIBERALISMO DIGITAL?

Atualizado: Jul 2

Apesar de a guerra fria ter acabado nos anos oitenta, não existir mais a URSS e nenhum país que siga o sistema de governo similar, salvo talvez a Coréia do Norte, ainda existe muita gente bradando por liberalismo, conservadorismo, progressismo e até por ditadura na internet.


Preciso lhe contar um segredo, o mundo pós internet, através dos buscadores e das redes sociais, resolveu esta questão encapsulando todos estes “ativistas” em bolhas virtuais, todos vivendo juntos “felizes para sempre”.


Eu chamo isto de era do liberalismo digital.


O Contexto


Apesar de estar disponível desde a década de setenta, a internet precisou muito tempo para se tornar uma rede global.


Teve que vencer inúmeras batalhas como a guerra das redes, a guerra dos softwares, a guerra dos hardwares, a guerra dos custos, a guerra do conhecimento, a guerra da conectividade, a guerra da padronização, a guerra da simplificação e por fim a guerra da mobilidade. De fato somente com a mobilidade, com os smartphones potentes e baratos, a internet conseguiu a globalização idealizada pelos seus criadores “hippies” da turma do Unix.


Assim quem nasceu antes de década de noventa, teve que esquecer tudo o que aprendeu sobre formas de comunicação, proporcionalmente a idade, para começar praticamente do zero. Já os nascidos a partir da década de noventa, já começaram inseridos neste novo contexto nativamente.


A internet foi uma das maiores revoluções na história da humanidade, um furacão e nós estamos bem no olho dele.


Como Funciona a Internet?


Todo mundo que possui um smartphone e que utiliza pelo menos um aplicativo, acredita que entende como funciona a internet. Mas o fato é que pouquíssimas pessoas realmente sabem como funciona realmente.


Basicamente a internet é uma rede que conecta hardwares que processam softwares.


Os seres humanos se dividem em usuários e desenvolvedores do software dentro deste mundo. A quase totalidade das pessoas são usuários. Os desenvolvedores são poucas pessoas que criam o software, (aplicativos) para poucas empresas comandadas por poucos empresários, que são realmente comandados poucos investidores. A palavra chave aqui é “poucos”.


Em relação à internet é imprescindível entender que não há empresários, no estilo Henry Ford (EUA) ou Salvador Arena (Brasil) que tinham visões e vocações empresariais além do evidente retorno financeiro. As empresas de internet são em geral “geeks” que foram alavancados por “traders”, que propiciaram às “startups” receberem aportes de “investidores” que visam apenas viver “por custas” dos reais empresários, mas não ser um deles. Estes “geeks” foram alçados a posições de CEO e bilionários sem o esforço de um empresário não virtual. São empresários do abstrato.


Portanto é um mundo novo, sem qualquer ligação com o que ocorreu antes já na raiz de seu modelo de negócio. Do mesmo modo as teorias referenciadas, por aqueles que tentam explicar a internet, feitas anteriores a mesma, acabam tendo pouca aderência para esta realidade. Em termos de internet, recorro a um trecho do compositor Lulu Santos:


“Nada do que foi será

De novo do jeito que já foi um dia

Tudo passa, tudo sempre passará

A vida vem em ondas

Como um mar

Num indo e vindo infinito

Tudo que se vê não é

Igual ao que a gente viu há um segundo

Tudo muda o tempo todo no mundo”...


Deste modo, peço desculpas aos meus amigos que usam referências de 2010 para trás, mas eu raramente vou recorrer a nenhuma delas.


As Bolhas Filtro


Esta expressão foi usada pela primeira vez por Eli Pariser, por volta de 2010, no seu livro Best Seller, para descrever o modo como o Google fazia a personalização de seus usuários baseados nos seus “interesses”. O algoritmo que eu “carinhosamente” chamo de “número gugol”, basicamente lhe trazia apenas aquilo que você já queria ver. E isso é notícia velha!


Imaginem de 2010 para cá, com os smartphones, nos quais você faz e tem tudo, fornecendo acesso as seu microfone, câmera, arquivos, contatos, localizações, serviços, compras, educação, amizades e quaisquer conteúdos digitais que você possua ou faça uso, passaram a ser utilizados não apenas por algoritmos finitos, mas por inteligência artificial com adaptação flexível.


As bolhas de filtro, descendentes das “câmeras de eco” e muito bem utilizadas pela “democracia ciborgue” para as “molduras ideológicas”, se valendo da “pós-verdade” e disparando as “fake news” são as “oficinas do diabo” modernas.


Os mecanismos de buscas da internet acabam isolando grupos de pessoas ao redor de visões e preconceitos que elas já têm, colocando todos em grupos fechados para novas ideias. Esta “segmentação de mercado” facilita muito o intuito de “negócios”, pois vende informações, produtos e serviços certeiros para os grupos, coisa que as mídias de massa anteriores sempre sonharam. É por esta razão que os “traders” e investidores, por trás das empresas de internet, investem massivamente neste seguimento.


Se você é bom entendedor já deve ter percebido que a internet, comandada pelas redes sociais e sistemas de busca, nada tem a ver com democratização da informação, mas com negócios.


Basicamente a internet só lhe traz mais do mesmo, sempre dentro da mesma bolha.


O Uso Político Alternativo


Lembrando sempre que quando se fala em internet, tem sempre “alguém que está pagando”.


Do mesmo modo com os “traders” e investidores "apostam" no mercado de capitais, os segundos orientados de forma remunerada pelos primeiros, manipulando os resultados de acordo com seus interesses, também o fazem na política. E quem melhor para manipular os “clientes eleitores” que os sistemas de buscas e redes sociais?


E não existe nada mais fácil do que usar os preconceitos, limitação de informações e até inteligência das pessoas do que conhecer as mesmas detalhadamente e reservadamente.


Quem primeiro percebeu isso, no meio da década passada, foi a “Alt Right” dos EUA financiada com muito dinheiro de seus “inimigos” declarados.


Usando os mesmos “traders” e investidores, fizeram um "benchmarking no" uso nas redes sociais para a política. O primeiro resultado desta parceria foi o investidor, especulador e apresentador “quixotesco” Donald Trump eleito presidente dos EUA. O que aconteceu em outros países, como no Brasil, foi apenas “rollout” (Conceito de TI) para as filiais.


Tudo se resume a ROI, nada além. Esqueçam teorias da conspiração, seitas, negacionismo, conservadorismo, totalitarismo etc. São todos apenas recursos de marketing virtual utilizados para atingir as bolhas que já existiam e estavam mapeadas. Temos apenas oportunistas e / ou personagens trabalhando e ganhando neste investimento garantido.


E não acreditem que o Trump se distanciou na “Alt Right”. Assim como um cachorro se distancia de seu osso, ele apenas enterrou para depois.


Informação Maliciosa e Desinformação Digital


As redes sociais conseguiram implantar o “comunismo”, todo mundo virou “otoridade” nelas. Todos são “PHD” em tudo e têm títulos de “juiz do STF” para julgar tudo.


É claro que assim como o comunismo, socialismo, liberalismo, conservadorismo e qualquer coisa que inventem mais, sempre haverá alguém “ganhando” no topo da pirâmide.


Como já foi dito antes:


“A essência da propaganda é ganhar as pessoas para uma ideia de forma tão sincera, com tal vitalidade, que, no final, elas sucumbam a essa ideia completamente, de modo a nunca mais escaparem dela. A propaganda quer impregnar as pessoas com suas ideias. É claro que a propaganda tem um propósito. Contudo, este deve ser tão inteligente e virtuosamente escondido que aqueles que venham a ser influenciados por tal propósito NEM O PERCEBAM.”


Paul Joseph Goebbels.


Como acontece nas redes sociais, por N razões, possivelmente incluindo tudo que há de pior na natureza humana e prática econômica, a pós-verdade maximizada, já no nível de desinformação e informação maliciosa, são fontes de informação únicas para a grande maioria das pessoas.


As redes sociais não são a internet, mas uma “internet” dentro da própria internet.


Assim como os sistemas de busca não buscam as informações fora das bolhas que ambos incluíram os “usuários”. Você é previamente “classificado” pelo seu “espelho virtual” e passa a ser apresentado somente às “realidades” que você pode ver no próprio espelho. É um jogo que leva em conta a psique do poder das “crenças” em ideias, religiões, política e afins. É o “viés das confirmações”, cognitivamente falando. Não há argumentação racional que o suplante isso. Quando alguém é confrontado por informações que desafiam suas “crenças”, as chances das pessoas aceitarem são sempre muito reduzidas. Aceitar informações que confirmam as “crenças” é muito mais fácil que aceitar aquelas que as contradizem. Você é manipulado para se “aprofundar” nas informações somente dentro da sua bolha. As pessoas adoram respostas “fáceis” e os algoritmos e inteligências artificiais das redes sociais e sistemas de busca sabem disso.


As redes sociais criam “gênios” que sabem cada vez mais sobre cada vez menos, como dizia aquela velha piada: “São um grande negócio se você as comprar pelo que elas valem e as revender pelo que elas acham que valem”. É um narcisismo virtual ardilosamente explorado estimulado unicamente por finalidades econômicas e / ou políticas.


As pessoas são manipuladas, sem se dar conta disso, por informações nas “câmaras de eco” (dentro das bolhas de filtragem), inseridas em um “ecossistema” individual e coletivo de informações viciadas em repetições de crenças “pétreas”.


A Era do Liberalismo Digital


Mesmo as redes sociais não tendo nada a ver com democracia ou liberdade de expressão, somente com o ROI de seus investidores, elas defendem ruidosamente as mesmas dentro de seus “cercadinhos” virtuais privados. Argumentam como elas fossem de fato à internet, mas não passam de uma forma de “e-commerce” mais sutil.


O mesmo discurso é adotado pelos usuários dentro dos “cercadinhos” virtuais das redes sociais, comendo apenas a “ração” que estas lhe fornecem de acordo com sua “genética” e finalidades “comerciais”, achando que estão defendendo seus direitos de liberdade de expressão e democracia. Isto raramente conhecendo os "cercadinhos" vizinhos.


Redes sociais não empresas privadas, comandadas por empresários estes, comandados por investidores. Apenas é o presente ápice do liberalismo econômico no mundo virtual.

Sem controles e regulamentação consolidados, como as outras mídias, apenas por serem “novas”.


Mas no fundo, em termos de direitos e obrigações, não há nada de novo nas redes sociais, pois nada mais são que uma extensão do mundo real onde todos vivem.


As redes sociais e as pessoas que as utilizam precisam estar sujeitas as mesmas leis que regem o mundo real, inclusive com “RG”.


Por enquanto ainda estão na fase do “liberalismo selvagem”.

Copyright © 2020 de Jair Lorenzetti Filho. Todos os direitos reservados. Este site ou qualquer parte dele não pode ser reproduzido ou usado de forma alguma sem autorização expressa, por escrito, do autor.

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