A LITURGIA BOLSOLAVISTA!

A palavra liturgia (do grego λειτουργία, "serviço público" ou "serviço do culto") compreende uma celebração religiosa pré-definida, de acordo com as tradições de uma religião em particular; pode incluir ou referir-se a um ritual formal e elaborado (como o COF) ou uma atividade diária escatológica como as lives olavistas no Youtube e posts no Twitter.


A liturgia é considerada por várias denominações bolsolavistas, nomeadamente as milícias virtuais nas redes sociais, como um ofício ou serviço indispensável e obrigatório. Isto porque estas milícias prestam essencialmente o seu culto de adoração a Bolsonaro (a mitolatria) através da liturgia. Para elas, a liturgia tornou-se, em suma, no seu culto oficial e público.


Além dos objetos sagrados, como os livros do Olavo de Carvalho, a liturgia bolsolavista é composta por cavilações ensinadas pelo guru aos seus discípulos através da bíblia bolsolavista, conhecida como COF e livros eclesiais complementares.


Vamos então resumir neste texto as cavilações de liturgia bolsolavista, com uns métodos mais objetivos e diretos que os do indouto apedeuta guru do bolsolavismo Olavo de Carvalho. As lérias que formam a liturgia bolsolavista das pelejas São 45 subdivididas em 12 categorias, vamos apresentar as lérias sequencialmente pela ordem de categorias:


I) Lérias da dispersão


Cada uma destas lérias caracteriza-se pelo uso ilegítimo de um operador proposicional, uso que desvia a atenção do auditório da falsidade de uma certa proposição.


1) Léria do falso dilema


É dado um limitado número de opções (na maioria dos casos apenas duas), quando de fato há mais. O falso dilema é um uso ilegítimo do operador “ou”. Pôr as questões ou opiniões em termos de “ou sim ou sopas” gera, com frequência (mas nem sempre), esta léria.


Exemplos:


· Ou concordas comigo ou não. (Porque se pode concordar parcialmente.)


· Reduz-te ao silêncio ou aceita o país que temos. (Porque uma pessoa tem o direito de denunciar o que entender.)


· Ou votas no Silveira ou será a desgraça nacional. (Porque os outros candidatos podem não ser assim tão maus.)


· Uma pessoa ou é boa ou é má. (Porque muitas pessoas são apenas parcialmente boas.)


Prova: Identifique as opções dadas e mostre (de preferência com um exemplo) que há pelo menos uma opção adicional.


2) Léria do apelo à ignorância (argumentum ad ignorantiam)


Os argumentos desta classe concluem que algo é verdadeiro por não se ter provado que é falso; ou conclui que algo é falso porque não se provou que é verdadeiro. (Isto é um caso especial do falso dilema, já que presume que todas as proposições têm de ser realmente conhecidas como verdadeiras ou falsas). Mas, como Davis escreve, “A falta de prova não é uma prova”.


Exemplos:


· Os fantasmas existem! Já provaste que não existem?


· Como os cientistas não podem provar que se vai dar uma guerra global, ela provavelmente não ocorrerá.


· Fred disse que era mais esperto do que Jill, mas não o provou. Portanto, isso deve ser falso.



Prova: Identifique a proposição em questão. Argumente que ela pode ser verdadeira (ou falsa) mesmo que, por agora, não o saibamos.


3) Léria da derrapagem (bola de neve)


Para mostrar que uma proposição, P, é inaceitável, extrai-se consequências inaceitáveis de P e consequências das consequências... O argumento é leriosos quando pelo menos um dos seus passos é falso ou duvidoso. Mas a falsidade de uma ou mais premissas é ocultada pelos vários passos “se... então...” que constituem o todo do argumento.


Exemplos:


· Se aprovamos leis contra as armas automáticas, não demorará muito até aprovarmos leis contra todas as armas, e então começaremos a restringir todos os nossos direitos. Acabaremos por viver num estado totalitário. Portanto não devemos banir as armas automáticas.


· Nunca deves jogar. Uma vez que comeces a jogar verás que é difícil deixar o jogo. Em breve estarás a deixar todo o teu dinheiro no jogo e, inclusivamente, pode acontecer que te vires para o crime para suportar as tuas despesas e pagar as dívidas.


· Se eu abrir uma exceção para ti, terei de abrir exceções para todos.


Prova: Identifique a proposição, P, que está a ser refutada e identifique o evento final, Q, da série de eventos. Depois mostre que este evento final, Q, não tem de ocorrer como consequência de P.


II) Lérias de apelo a motivos (em vez de razões)


4) Léria do apelo à força (argumentum ad baculum)


O auditório é informado das consequências desagradáveis que se seguirão à discordância com o autor.


Exemplos:


· É melhor admitires que a nova orientação da empresa é a melhor — se pretendes manter o emprego.


· A NAFTA é um erro! E se não votares contra a NAFTA, então “votamos-te” para fora do escritório.


Prova: Identifique a ameaça e a proposição. Argumente que a ameaça não tem relação com a verdade ou a falsidade da proposição.


5) Léria de apelo à piedade (argumentum ad misercordiam)


Definição: Pede-se a aprovação do auditório na base do estado lastimoso do Autor.


Exemplos:


· Como pode dizer que eu reprovo? Eu estava mais perto da positiva e, além disso, estudei 16 horas por dia.


· Esperamos que aceite as nossas recomendações. Passámos os últimos três meses a trabalhar desalmadamente nesse relatório.


Prova: Identifique a proposição e o apelo à autoridade e argumente que o estado lastimoso do argumentador nada tem a ver com a verdade da proposição.


6) Léria do apelo às consequências (argumentum ad consequentiam)


O argumentador, para “mostrar” que uma crença é falsa, aponta consequências desagradáveis que advirão da sua defesa.


Exemplos:


· Não podes aceitar que a teoria da evolução é verdadeira, porque se fosse verdadeira estaríamos ao nível dos macacos.


· Deve-se acreditar em Deus, porque de outro modo a vida não teria sentido. (Talvez. Mas também é possível dizer que, como a vida não tem sentido, Deus não existe.)


Prova: Identifique as consequências e argumente que a realidade não tem de se adaptar aos nossos desejos.


7) Léria do apelo a preconceitos


Termos carregados e emotivos são usados para ligar valores morais à crença na verdade da proposição.


Exemplos:


· Os portugueses bem-intencionados estão de acordo em plebiscitar a pena de morte.


· As pessoas razoáveis concordarão com a nossa política fiscal.


· O primeiro-ministro tem a veleidade de pensar que as novas taxas de juro ajudarão a diminuir o déficit. (O uso de “tem a veleidade de pensar” sugere sem argumentos que o primeiro ministro está enganado.)


· Os burocratas do parlamento resistem às leis de defesa do património. (Compare-se com: “Os parlamentares rejeitaram a proposta de lei de defesa do património”.)


Prova: Identifique os termos preconceituosos usados: (p. ex.: “portugueses bem-intencionados” ou “Pessoas razoáveis”). Mostre que discordar da conclusão não é suficiente para dizer que a pessoa é “mal-intencionada” ou “pouco razoável”.


8) Léria do apelo ao povo (argumentum ad populum)


Com esta léria sustenta-se que uma proposição é verdadeira por ser aceite como verdadeira por algum sector representativo da população. Esta léria é, por vezes, chamada “léria do apelo à emoção” porque os apelos emocionais pretendem atingir, muitas vezes, a população como um todo.


Exemplos:


· Se você fosse bela poderia viver como nós. Compre também Buty-EZ e torne-se bela. (Aqui apela-se às “pessoas bonitas”)


· As sondagens sugerem que os liberais vão ter a maioria no parlamento, também deves votar neles.


· Toda a gente sabe que a Terra é plana. Então por que razão insistes nas tuas excêntricas teorias?


III) Lérias de fugir ao assunto


9) Léria dos ataques pessoais (argumentum ad hominem)


Ataca-se pessoa que apresentou um argumento e não o argumento que apresentou. A léria ad hominem assume muitas formas. Ataca, por exemplo, o carácter, a nacionalidade, a raça ou a religião da pessoa. Em outros casos, a léria sugere que a pessoa, por ter algo tem algo a ganhar com o argumento, é movida pelo interesse. A pessoa pode ainda ser atacada por associação ou pelas suas companhias.


Há três formas maiores da léria ad hominem:


· Ad hominem (abusivo): em vez de atacar uma afirmação, o argumento ataca pessoa que a proferiu.


· Ad hominem (circunstancial): em vez de atacar uma afirmação, o autor aponta para a relação entre a pessoa que a fez e as suas circunstâncias.


· Tu quoque: esta forma de ataque à pessoa consiste em fazer notar que a pessoa não pratica o que diz.


Exemplos:


· Podes dizer que Deus não existe, mas estás apenas a seguir a moda (ad hominem abusivo).


· É natural que o ministro diga que essa política fiscal é boa porque ele não será atingido por ela (ad hominem circunstancial).


· Podemos passar por alto as afirmações de Simplício porque ele é patrocinado pela indústria da madeira (ad hominem circunstancial).


· Dizes que eu não devo beber, mas não estás sóbrio faz mais de um ano (tu quoque).


Prova: Identifique o ataque e mostre que o carácter ou as circunstâncias da pessoa nada tem a ver com a verdade ou falsidade da proposição defendida.


10) Léria do apelo à autoridade (argumentum ad verecundiam)


Ainda que às vezes seja apropriado citar uma autoridade para suportar uma opinião, a maioria das vezes não o é. O apelo à autoridade é especialmente impróprio se:


A pessoa não está qualificada para ter uma opinião de perito no assunto.


Não há acordo entre os peritos do campo em questão.


A autoridade não pode, por algum motivo ser levada a sério — porque estava a brincar, estava ébria ou por qualquer outro motivo.


Uma variante da lériado apelo à autoridade é o “ouvi dizer” ou “diz que”. Um argumento por “ouvir dizer” é um argumento que depende de fontes em segunda ou terceira mão.


Exemplos:


· O famoso psicólogo Dr. Frasier Crane recomenda-lhe que compre o último modelo de carro da Skoda.


· O economista John Kenneth Galbraith defende que uma apertada política económica é a melhor cura para a recessão. (Apesar de Galbraith ser um perito, nem todos os economistas estão de acordo nesta questão.)


· Encaminhamo-nos para uma guerra nuclear. A semana passada Ronald Reagan disse que começaríamos a bombardear a Rússia em menos de cinco minutos. (Claro que o disse por piada ao testar o microfone.)


· Sousa disse que nunca perdoaria ao Pinto. (Trata-se de um caso de “ouvir dizer” — de fato ele apenas disse que Pinto nada tinha feito para ser perdoado.)


Prova: Mostre uma de duas coisas (ou ambas):


A pessoa citada não é uma autoridade no campo em questão;


Entre os especialistas não há consenso sobre o assunto discutido.


11) Léria da autoridade anónima


A autoridade em questão não é nomeada. Isto é uma forma de apelo à autoridade porque quando a autoridade não é nomeada é impossível confirmar se se trata de um perito. Esta léria é tão comum que merece uma menção especial. Uma variante desta léria é o apelo ao rumor. Como a fonte do rumor é, em regra, desconhecida, não é possível verificar se o rumor merece crédito. Rumores falsos e caluniosos são lançados muitas vezes intencionalmente com o objetivo de desacreditar o oponente. Exemplos:


· Um membro do governo disse que uma nova lei sobre posse e uso de armas será proposta amanhã.


· Os peritos dizem que a melhor maneira de prevenir uma guerra nuclear é estar preparado para ela.


· Sabe-se que milhares de operações desnecessárias são realizadas todos os anos.


· Diz-se que o primeiro-ministro vai decretar outro feriado antes das eleições.


Prova: Argumente que pelo fato de não conhecermos a fonte e a base da informação, não temos maneira de avaliar a fiabilidade da informação.


12) Léria do estilo sem substância


Pretende-se que o modo como o argumento ou o argumentador se apresentam contribui para a verdade da conclusão.


Exemplos:


· Nixon perdeu o debate presidencial porque tinha suor na testa.


· Trudeau sabe dirigir as massas. Ele deve ter razão.


· Por que não aceitas o conselho daquele jovem elegante e bem parecido?


Prova: É um fato que o modo como o argumento é apresentado, influencia a crença das pessoas na verdade da conclusão. Mas a verdade da conclusão não depende do modo como o argumento é apresentado. Para mostrar que está léria está a ser cometida, mostre que, neste caso, o estilo não afeta a verdade ou a falsidade da conclusão.


IV) Lérias indutivas


O raciocínio indutivo consiste em inferir das propriedades de uma amostra para as propriedades de um elemento não pertencente à amostra ou para as propriedades da população como um todo. Suponha-se, por exemplo, que temos uma lata com 1000 feijões. Alguns são pretos e outros são brancos. Suponha agora que retirámos da lata uma amostra de 100 feijões e que 50 eram brancos e outros 50 eram pretos. Então, podemos inferir indutivamente que metade dos feijões da lata (500 feijões) são pretos e que a outra metade é branca.


Todo o raciocínio indutivo depende da semelhança entre a amostra e a população. Quanto maior for a semelhança entre a amostra e a população como um todo, maior fiabilidade terá a inferência indutiva. Por outro lado, se a amostra tiver diferenças relevantes face à população, então a inferência indutiva não será fiável.


Mesmo que as premissas de um raciocínio indutivo sejam verdadeiras, a conclusão pode ser falsa. Apesar disso, uma boa inferência indutiva dá-nos uma boa razão para pensar que a conclusão é verdadeira.


13) Léria da generalização precipitada


A amostra é demasiado limitada e é usada apenas para apoiar uma conclusão tendenciosa. Exemplos:


· Fred, o australiano, roubou a minha carteira. Portanto, os Australianos são ladrões. (Claro que não devemos julgar os Australianos na base de um exemplo.)


· Perguntei a seis dos meus amigos o que eles pensavam das novas restrições ao consumo e eles concordaram em que se trata de uma boa ideia. Portanto as novas restrições são populares.


Prova: Identifique as dimensões da amostra e a população em questão. Depois mostre que a amostra é insuficiente. Note-se que uma prova formal requer cálculo matemático porque está em jogo a teoria das probabilidades. Mas em muitas situações podemos confiar no bom senso.


14) Léria da amostra limitada


Há diferenças relevantes entre a amostra usada na inferência indutiva e a população como um todo.


Exemplos:


· Para ver como os Portugueses vão votar na próxima eleição sondou-se uma centena de pessoas em Bragança. Isto mostra, sem dúvida, que a direita vai limpar as eleições. (As pessoas de Bragança tendem a ser mais conservadoras e, portanto, mais propensas a votar em partidos de direita do que as outras pessoas no resto do país.)


· As maçãs do topo da caixa parecem boas. Todas as maçãs desta caixa devem ser boas. (As maçãs com bicho, claro, estão em camadas mais fundas...)


Prova: Mostre que há diferenças relevantes entre a amostra e a população como um todo. Depois, argumente que pôr a amostra ser diferente, a conclusão é provavelmente diferente.


15) Léria da falsa analogia


Numa analogia mostra-se, primeiro, que dois objetos, a e b, são semelhantes em algumas das suas propriedades, F, G, H. Conclui-se, depois, que como a tem a propriedade E, então b também deve ter a propriedade E. A analogia falha quando os dois objetos, a e b, diferem de tal modo que isso possa afetar o fato de ambos terem a propriedade E. Diz-se, neste caso, que a analogia não teve em conta diferenças relevantes.


Exemplos:


· Os empregados são como pregos. Temos de martelar a cabeça dos pregos para estes desempenharem a sua função. O mesmo deve acontecer com os empregados.


· Governar um país é como gerir uma empresa. Assim, como a gestão de uma empresa responde unicamente ao lucro dos seus acionistas, também a governação deve fazer o mesmo. (Mas os objetivos da governação e da gestão de uma empresa são muito diferentes; assim, provavelmente têm de encontrar critérios diferentes.)


Prova: Identifique os dois objetos ou eventos que estão a ser comparados e a propriedade que se diz que ambos possuem. Mostre que os dois objetos diferem de tal modo que a analogia se torna insuficiente.


16) Léria da indução preguiçosa


A conclusão apropriada de um argumento indutivo é negada apesar dos dados.


Exemplos:


· Hugo teve doze acidentes nos últimos 6 meses. No entanto, ele continua a dizer que se trata de coincidência e não de culpa sua. (Indutivamente, as provas apontam irresistivelmente para a culpa de Hugo.)


· Sondagens e mais sondagens mostram que o N.D.P. ganhará menos de 10 lugares no Parlamento. Apesar disso o líder do Partido insiste em que o Partido terá muito mais votos do que as sondagens sugerem. (De fato o N.D.P. só obteve 9 lugares.)


Prova: Acima de tudo pode insistir na força da inferência.


17) Léria de omissão de dados


Dados importantes, que arruinariam um argumento indutivo, são excluídos. A exigência de que toda a informação relevante e disponível seja incluída num argumento indutivo, é chamada “princípio da informação total”.


Exemplos:


· O João é alentejano, e a maioria dos alentejanos vota no PCP, portanto o João provavelmente votará no PCP. (A informação deixada de fora é que o João vive em Évora e a maioria dos eborenses vota PS.)


· Muito provavelmente o Benfica vai ganhar este jogo porque ganhou nove dos últimos dez jogos. (Oito das vitórias foram obtidas sobre equipas de escalões secundários, na fase de preparação, e o Benfica vai agora defrontar uma equipa de primeiro plano.)


Prova: Exponha os dados em falta e mostre que eles mudam a conclusão do argumento indutivo. Note-se que não basta mostrar que nem todas as provas foram incluídas — é preciso mostrar que as provas em falta justificam outra conclusão.


V) Lérias com regras gerais


Uma regra geral é um enunciado habitualmente verdadeiro, mas nem sempre o é. As regras gerais são indicadas, muitas vezes, por expressões como “quase sempre” ou “a maioria”. Por exemplo, “a maioria dos conservadores favorecem cortes na Segurança Social”. Algumas vezes usamos a palavra “geralmente”, como em “Geralmente os conservadores são a favor de cortes na Segurança Social”. Mas algumas vezes nenhuma palavra específica é usada, como, por exemplo, em “Os conservadores favorecem cortes na Segurança Social”. As regras gerais nem sempre são estritamente verdadeiras. Portanto, quando alguém trata uma regra geral como se fosse estritamente sempre verdadeira, comete uma Léria.


18) Léria do acidente


É aplicada a regra geral quando as circunstâncias sugerem que se deve aplicar uma exceção à regra. Exemplos:


· A lei diz que não deves conduzir a mais de 50 Km/h. Portanto, mesmo que o teu pai não possa respirar, não deves passar dos 50 km/h.


· É bom devolver as coisas que nos emprestaram. Portanto, deves devolver essa arma automática ao louco que te a emprestou. (Adaptado de Platão, A República, I).


Prova: Identifique a regra geral em questão e mostre que não é uma regra geral estrita. Depois mostre que as circunstâncias deste caso sugerem que a regra não deve aplicar-se.


19) Léria inversa do acidente


Aplica-se uma exceção à regra geral a casos em que se deve aplicar a regra geral. Exemplos:


· Se deixarmos os doentes terminais usar heroína, devemos deixar toda a gente usá-la.


· Se deixou que Joana, a tal moça que foi atropelada por um camião, entregasse o trabalho mais tarde, também deveria permitir que toda a turma entregasse o trabalho mais tarde.


Prova: Identifique a regra geral em questão e mostre que o caso especial é uma exceção à regra.


VI) Lérias causais


Os argumentos causais são os argumentos onde se conclui que uma coisa ou acontecimento causa outra. São muito comuns, mas, como a relação entre causa e efeito é complexa, é fácil cometer erros. Em regra, diz-se que C é a causa do efeito E se e só se:


Geralmente, quando C ocorre, também E ocorre; e


Geralmente, se C não ocorre, então E também não ocorre.


Diz-se “geralmente” porque há sempre exceções. Diz-se, por exemplo, que riscar o fósforo é a causa da chama porque:


Geralmente, quando riscamos o fósforo ele acende (exceto quando riscamos o fósforo dentro de água...); e


Geralmente, quando o fósforo não é riscado, ele não acende (exceto quando o acendemos com um maçarico...).


Muitos especialistas requerem também que uma afirmação causal seja apoiada por uma lei da natureza. Por exemplo, a afirmação “riscar o fósforo é a causa da chama” é justificado pelo princípio “a fricção produz calor, e o calor produz o fogo”.


20) Léria depois disso, por causa disso (post hoc ergo propter hoc)


O nome em Latim significa: “depois disso, logo, por causa disso”. Isto descreve a Léria. Um autor comete a Léria quando pressupõe que, por uma coisa se seguir a outra, então aquela teve de ser causada por esta.


Exemplos:


· A imigração do Alentejo para Lisboa aumentou mal a prosperidade aumentou. Portanto, o incremento da imigração foi causado pelo incremento da prosperidade.


· Tomei o EZ-Mata-Gripe e dois dias depois a minha constipação desapareceu...


Prova: Mostre que a correlação é coincidência, mostrando: 1) que o “efeito” teria ocorrido mesmo sem a alegada causa ocorrer, ou que 2) o efeito teve uma causa diferente da que foi indicada.


21) Léria do efeito conjunto


Sustenta-se que uma coisa causa outra, mas, de fato, são ambas o efeito de uma mesma causa subjacente. Esta Léria é muitas vezes apresentada como um caso especial de Léria post hoc ergo propter hoc.


Exemplos:


· Estamos a viver uma fase de elevado desemprego que é provocado por um baixo consumo. (De fato, ambos podem ser causados por taxas de juro muito elevadas.)


· Estás com febre e isso está a fazer com que te enchas de borbulhas. (De fato, ambos os sintomas são causados pelo sarampo.)


Prova: Identifique os dois efeitos e mostre que ambos são provocados pela mesma causa subjacente. É preciso indicar a causa oculta e provar que ela causa cada efeito.


22) Léria da causa genuína, mas insignificante


O objeto ou evento identificado como a causa de um efeito, é uma causa genuína — mas insignificante quando comparada com outras causas desse evento. Note-se que não se trata desta Léria quando todas as outras causas são igualmente insignificantes. Não é falacioso dizer que a sua ajuda causou a derrota do partido do governo, porque o seu voto tem o mesmo peso de qualquer outro voto e, portanto, é igualmente parte da causa.


Exemplos:


· Fumar causa a poluição do ar em Edmonton. (É verdade, mas o efeito do fumo do tabaco é insignificante comparado com o efeito poluente dos automóveis.)


· Deixando a tua fornalha acesa durante a noite contribuis para o aquecimento global do planeta.


Prova: Identifique uma causa mais significativa.


23) Léria de tomar o efeito pela causa


A relação entre causa e efeito é invertida.


Exemplos:


· O câncer faz fumar.


· A propagação da SIDA foi provocada pela educação sexual. (De fato, o desenvolvimento da educação sexual foi provocado pela propagação da SIDA.)


Prova: Exponha um argumento causal, mostrando que a relação entre causa e efeito foi, de fato, invertida.


24) Léria da causa complexa


O efeito é provocado por um certo número de objetos ou eventos, dos quais a causa identificada é apenas uma parte. Uma variante disto são os ciclos de feedback onde o efeito é ele mesmo parte da causa.


Exemplos:


· O acidente não teria ocorrido se não fosse a má localização do arbusto. (Certo, mas o acidente não teria ocorrido se o condutor não estivesse bêbado, e se o peão tivesse prestado atenção ao trânsito.)


· A explosão do Challenger foi causada pelo tempo frio. (Verdadeiro, mas não teria ocorrido se as juntas tóricas tivessem sido bem fabricadas.)


· As pessoas estão com medo por causa do incremento do crime. (Certo, mas as pessoas têm sido levadas a violar a lei em consequência do seu medo. O que ainda aumenta mais o crime.)


Prova: Mostre que todas as causas e não apenas aquela que foi mencionada são precisas para explicar o efeito.


VII) Léria de falhar o alvo


Estas lérias têm em comum o fato de falharem a prova de que a conclusão é verdadeira.


25) Léria da petição de princípio (petitio principii)


A verdade da conclusão é pressuposta pelas premissas. Muitas vezes, a conclusão é apenas reafirmada nas premissas de uma forma ligeiramente diferente. Nos casos mais subtis, a premissa é uma consequência da conclusão.


Exemplos:


· Dado que não estou a mentir, segue-se que estou a dizer a verdade.


· Sabemos que Deus existe, porque a Bíblia o diz. E o que a Bíblia diz deve ser verdadeiro, dado que foi escrita por Deus e Deus não mente. (Neste caso teríamos de concordar primeiro que Deus existe para aceitarmos que ele escreveu a Bíblia.)


Prova: Mostre que para acreditarmos nas premissas já teríamos de aceitar a conclusão.


26) Léria da conclusão irrelevante (ignoratio elenchi)


Um argumento prova uma coisa diferente da pretendida.


Exemplos:


· Deves aceitar a nova política de arrendamento. Não podemos continuar a ver pessoas a viver nas ruas, devemos ter rendas mais baratas. (Podemos pensar que é inaceitável ver pessoas a viver nas ruas e, no entanto, não estarmos de acordo com as novas rendas)


· A lei deve estipular uma percentagem mínima de mulheres nos cargos políticos, repartições e empresas. Os homens dominam praticamente todos os cargos importantes. Só uma sociedade discriminatória o pode suportar. Não fazermos nada para alterar esse estado de coisas é inaceitável. (Podemos concluir, com o argumentador, que a nossa sociedade é machista sem termos de aceitar que a discriminação positiva que ele propõe é a solução.)


Prova: Mostre que a conclusão apresentada pelo argumentador, com a qual até pode concordar, mas não é a conclusão que ele pretendia tirar.


27) Léria do espantalho


O argumentador, em vez de atacar o melhor argumento do seu opositor, ataca um argumento diferente, mais fraco ou tendenciosamente interpretado. Infelizmente é uma das “técnicas” de argumentação mais usadas.


Exemplos:


· As pessoas que querem legalizar o aborto, querem prevenção irresponsável da gravidez. Mas nós queremos uma sexualidade responsável. Logo, o aborto não deve ser legalizado.


· Devemos manter o recrutamento obrigatório. As pessoas não querem o fazer o serviço militar porque não lhes convém. Mas devem reconhecer que há coisas mais importantes do que a conveniência.


Prova: Mostre que o argumento oposto foi mal representado, mostrando que os opositores têm argumentos mais fortes. Descreva um argumento mais forte.


VIII) Lérias da ambiguidade


As Lérias desta secção são, todas elas, Lérias geradas pela falta de clareza no uso de uma frase ou palavra. Há dois modos de isto suceder:


A palavra ou frase pode ser ambígua, caso em que tem mais de um sentido distinto;


A palavra ou frase pode ser vaga. Nesse caso não tem um sentido distinto.


28) Léria do equívoco


A mesma palavra pode ser usada com dois significados diferentes.


Exemplos:


· Criminalidade é ilegalidade. O julgamento de um roubo ou assassínio são ações criminais. Os julgamentos de roubos e assassínios são designados de ações criminais. Logo, os julgamentos de roubos e assassínios são ilegais.

· Os assassinos de crianças são desumanos. Portanto, os humanos não matam crianças. (O argumento joga com os significados moral e descritivo de “humano”)


· Para ser grande ou pequeno um objeto tem, primeiro, de ser. Logo, o ser do objeto surgiu primeiro. (Jogo com os significados lógico e físico de “ser”)


Prova: Identifique a palavra que é usada mais de uma vez. Depois, mostre que a palavra surge com diferentes definições, adequadas num dos seus usos e desadequadas noutros.


29) Léria de anfibologia


Uma anfibologia ocorre quando a construção da frase permite atribuir-lhe diferentes significados.


Exemplos:


· No teu emprego todos gostam de um carro. Portanto, há um carro muito especial. (Todos gostam de um carro qualquer ou do mesmo carro?)


· O Oráculo de Delos disse a Croseus que se ele continuasse a guerra destruiria um reino poderoso. (O Oráculo não disse que seria o seu próprio reino...)


Prova: Evidencie a ambiguidade da frase, mostrando que pode receber diferentes interpretações.


30) Léria de ênfase


A ênfase é usada para sugerir uma proposição diferente daquela que, de fato, é expressa. Exemplos:


· Não há CERVEJA GRÁTIS!


· A ex-namorada, procurando vingar-se do capitão, escreveu no jornal: “Hoje, o capitão estava sóbrio”. (Ela sugere, com a ênfase, que habitualmente o capitão está bêbado.

Prova: Explicite a proposição sugerida, contrastando-a com a proposição realmente expressa.


IX) Lérias de erros categoriais


Estas lérias ocorrem porque o autor pressupõe erroneamente que as partes e o todo devem ter propriedades semelhantes. No entanto, as coisas podem ter, como um todo, propriedades diferentes das que cada uma tinha em separado.


31) Léria da composição


Pôr as partes de um todo terem uma certa propriedade, argumenta-se que o todo tem essa mesma propriedade. Esse todo pode ser tanto um objeto composto de diferentes partes, como uma coleção ou conjunto de membros individuais.


Exemplos:


· Cada tijolo tem três polegadas de altura, portanto a parede de tijolo tem três polegadas de altura.


· As células não têm consciência. Portanto, o cérebro, que é feito de células, não tem consciência.


Prova: Identifique o todo e as partes em questão. Mostre que, em geral o todo não têm de ter as propriedades das partes, ou, podendo ser mais específico, mostre que o todo em questão não tem as propriedades das partes.


32) Léria da divisão


Como o todo tem uma certa propriedade, argumenta-se que as partes têm essa propriedade. O todo em questão, pode ser tanto um objeto como uma coleção ou conjunto de membros individuais.


Exemplos:


· A parede de tijolo tem 1,90 m de altura. Portanto os tijolos têm 1,90 de altura.


· Como o cérebro tem consciência, cada célula do cérebro deve ter a consciência.


· Como tudo tem uma causa, então há uma causa de tudo.


· Como todos têm uma mãe, então há uma mãe de todos.


Prova: Mostre que as propriedades em questão são propriedades das partes, mas não do todo. Se for preciso, descreva as partes para mostrar que elas não têm as propriedades do todo.


X) Lérias non sequitur


O termo non sequitur significa literalmente “não se segue que”. Nesta secção descrevemos lérias que ocorrem em consequência da forma de argumento usado ser inválida.


33) Léria da afirmação da consequente


Esta Léria deriva da confusão entre condição suficiente e condição necessária. Por exemplo: dadas as proposições


P = Hitler levou com a bomba H.


Q = Hitler morreu.


Se admitir que P é verdadeira, concluirei que Q é verdadeira. P é suficiente para Q. Q é necessária para P (não há P sem Q). Mas, do fato de Q ser verdadeira, não posso concluir que P o seja (Q não é suficiente para P). Logo, todo o argumento com a seguinte forma é inválido:


Se P, então Q.


Ora, Q.


Logo, P.


Exemplos:


· Se jogamos bem, ganhamos. Ora, ganhámos. Logo, jogámos bem. (De fato jogámos mal, mas o adversário jogou pior e o árbitro ajudou)


· Se estou em Faro, estou no Algarve. Ora, estou no Algarve. Logo, estou em Faro. (Claro que posso estar em Olhão ou em Sagres.)


· Se a fábrica estivesse a poluir o rio, então veríamos o número de peixes mortos aumentar. Há cada vez mais peixes a morrer. Logo, a fábrica está a poluir o rio.


Prova: Mostre que, mesmo sendo as premissas verdadeiras, a conclusão pode ser falsa. Em geral basta mostrar que Q pode ser consequência de outra coisa que não P. Por exemplo, a morte dos peixes pode ser provocada pela aplicação de pesticidas e não pela fábrica.


34) Léria da negação do antecedente


Nesta Léria confunde-se a condição suficiente com a condição necessária. Com uma frase condicional (Se P, então Q) dizemos que se P for verdadeira, Q também é; mas não dizemos que a recíproca é verdadeira. Por isso, os argumentos com a seguinte forma são inválidos:



Se P, então Q.

Não-P.

Logo, não-Q.


Exemplos:


· Se fores atingido por um carro quando tiveres 6 anos, morres jovem. Mas não foste atingido por um carro aos 6 anos. Portanto, não vais morrer jovem. (Claro que ele poderia ser atingido por um comboio com a idade de 6 anos e, nesse caso, morria jovem)


· Se estou em Faro, então estou no Algarve. Não estou em Faro. Logo, não estou no Algarve. (Mas pode estar em Olhão...)


Prova: Mostre que a conclusão pode ser falsa mesmo que as premissas sejam verdadeiras. Em particular, mostre que a consequente, Q, pode ocorrer mesmo que P não ocorra.


35) Léria da inconsistência


O argumentador avança pelo menos duas proposições que não podem ser verdadeiras ao mesmo tempo. Em tais casos as proposições podem ser contrárias ou contraditórias. Exemplos:


· Montreal está a cerca de 200 km de Otawa, enquanto Toronto está a 400 km de Otawa. Toronto está mais perto de Otawa do que Montreal.


· John é maior do que Jake, e Jake é maior do que Fred, enquanto Fred é maior do que John.


Prova: Parta de uma das afirmações e use-a como uma premissa para mostrar que a outra é falsa.


XI) Lérias da explicação


Uma explicação é uma forma de raciocínio que tenta dar resposta à pergunta “Porquê? ” Por exemplo: é com uma explicação que respondemos a uma pergunta como “Por que é que o céu é azul? ” Uma boa explicação será baseada numa teoria científica ou empírica. A explicação do azul do céu será dada em termos da composição dos céus e das teorias da reflexão.



36) Léria de invenção de fatos


Uma explicação pretende dizer-nos por que razão acontece certo fenómeno. A explicação é falaciosa se o fenómeno não ocorre ou se não houver prova de que possa ocorrer.


Exemplos:


· A razão da timidez da maioria das pessoas solteiras reside no carácter possessivo das suas mães. (É uma tentativa de explicar por que razão a maioria das pessoas solteiras são tímidas. No entanto, não é verdade que a maioria das pessoas solteiras sejam tímidas.)


· João entrou na loja porque queria ver a Maria. (Isto é uma Léria porque, de fato, João não entrou na loja.)


· A razão pela qual a maioria das pessoas se opõem à greve é o medo de perder o emprego. (Pretende-se explicar a oposição dos trabalhadores à greve. Mas suponha que eles votam a continuação da greve. Então não há, de fato, oposição à greve.)

Prova: Identifique o fenómeno que está a ser explicado. Mostre que não há razão para acreditar que o fenómeno tenha de fato ocorrido.


37) Léria de distorcer fatos


Uma explicação pretende dizer-nos por que razão acontece certo fenómeno (fato). O fenómeno ou fato está estabelecido, o argumento visa estabelecer a explicação. Neste tipo de Lérias, no entanto, apesar de algo semelhante ao fenómeno a explicar ter ocorrido, ele é falsificado, apresentado de forma parcial ou baseado em provas ad hoc.


Exemplos:


· A timidez da maioria dos solteiros explica-se pelo carácter dominador das mães. (Pretende-se explicar a timidez da maioria dos solteiros. No entanto provou-se que o autor baseou a sua argumentação em dois solteiros que conheceu em tempos, sendo ambos tímidos... isto está longe de ser artificial: é assim que muitas vezes formamos a nossa opinião sobre diversos grupos humanos)


· A razão pela qual obtenho boas classificações é que os meus alunos me apreciam. (Isto é uma Léria quando as avaliações com menos de 70% são eliminadas com a justificação de que os alunos não compreenderam a questão...)


Prova: Identifique o fenómeno que está a ser explicado. Mostre que as provas avançadas para afirmar a existência do fenómeno foram, de algum modo, manipuladas.


38) Léria da Irrefutabilidade


A teoria que foi concebida para explicar a ocorrência de algum fenómeno não pode ser testada. Testamos uma teoria por meio das suas previsões. Por exemplo, uma teoria pode prever que a luz muda de trajetória em certas condições, ou que um líquido muda de cor com o ácido, ou que um psicótico responda mal a certos estímulos. Se o evento previsto não ocorrer, então a informação obtida contradiz a teoria. Uma teoria não pode ser testada se não faz previsões. Também não pode ser testada se prevê acontecimentos que podem ocorrer independentemente de a teoria ser verdadeira.


Exemplos:


· Um avião desapareceu no meio do Atlântico devido ao efeito do Triângulo das Bermudas, uma força tão subtil que não pode ser medida por qualquer instrumento. (À “força” do Triângulo das Bermudas não se atribui mais nenhum efeito além do desaparecimento ocasional de um avião. Por isso, a única previsão que permite é que mais aviões se irão perder. Mas isto é o que pode muito bem acontecer independentemente de a teoria ser verdadeira ou falsa. )

· Ganhei a lotaria porque a minha aura psíquica me fez ganhar. (Uma maneira de testar esta teoria é tentar ganhar de novo a lotaria. Mas a pessoa responde que essa aura só o faz ganhar uma vez. Não há, portanto, uma maneira de determinar se ganhou em resultado da aura ou do acaso.)

· A razão pela qual tudo existe é que Deus tudo criou. (Isto pode ser verdade, mas como explicação não tem qualquer peso porque não temos meios para testar tal teoria. Nenhuns fatos no mundo podem mostrar que esta teoria é falsa porque, de acordo com tal teoria, todos os fatos foram criados por Deus.)


· Ny Quil fá-lo dormir devido à sua fórmula dormitiva. (Quando pressionado, o fabricante definirá a “fórmula dormitiva" como “qualquer coisa que o faz dormir”. Para testar esta teoria, teríamos de descobrir outra coisa que contivesse a fórmula dormitiva e verificar se ela faz dormir. Mas como encontramos alguma coisa que contenha a fórmula dormitiva? Procuramos por coisas que façam dormir! Mas nós podemos prever que as coisas que fazem dormir fazem dormir, não interessando o que a teoria diz. Esta teoria é vazia.)

Prova: Identifique a teoria. Mostre que ela não faz previsões, ou que as previsões feitas com a teoria são falsas ou que as previsões que ela faz podem ser verdadeiras mesmo que a teoria seja falsa.


39) Léria de âmbito limitado (ad hoc)


A teoria só explica um fenómeno e nada mais.


Exemplos:


· Havia hostilidade em relação aos hippies dos anos 60 por causa do ressentimento dos seus pais em relação às crianças. (Esta explicação é deficiente porque explica a hostilidade em relação aos hippies e nada mais. Uma teoria melhor seria dizer que havia hostilidade em relação aos hippies porque os hippies são diferentes, e as pessoas temem coisas diferentes. Esta teoria explicaria não só a hostilidade em relação aos hippies, mas também outras formas de hostilidade.)


· As pessoas tornam-se esquizofrénicas porque as diferentes partes do seu cérebro funcionam separadas. (Esta teoria explica a esquizofrenia e nada mais.)


Prova: Identifique a teoria e o fenómeno que ela explica. Mostre que a teoria não explica nada mais. Argumente que as teorias que só explicam um fenómeno são, na melhor das hipóteses, incompletas.


40) Léria de pouca profundidade (superficialidade)


As teorias explicam os fatos apelando a causas ou fenómenos subjacentes. As teorias que não apelam a causas subjacentes e apenas apelam à pertença a uma categoria (apenas incluem o fenómeno em uma classe de fenómenos) são superficiais.


Exemplos:


· A minha gata gosta de atum porque é uma gata. (Esta teoria apenas afirma que os gatos gostam de atum, sem explicar este fato.)


· Ronald Reagan era militarista porque era americano. (Certo, ele era americano. Mas, em que é que o fato de ser americano o torna militarista? O que o levou a agir dessa maneira? A teoria não nos diz isso e, portanto, não nos dá uma boa explicação.)


· Estás a dizer isso só porque pertences ao sindicato. (Esta tentativa de rejeição do argumento pretende explicar o comportamento do opositor como manifestação de frivolidade. Falha, no entanto, porque não é uma explicação. Suponhamos que toda a gente do sindicato dizia o mesmo. E daí? Tínhamos de ir mais fundo — tínhamos de perguntar por que razão toda a gente do sindicado dizia isso, antes de podermos concluir que as afirmações do opositor são frívolas.)


Prova: As teorias desta espécie tentam explicar um fenómeno, mostrando que ele é parte de uma classe ou categoria de fenómenos semelhantes. Aceitando esse fato, exija uma explicação mais vasta para os fenómenos dessa categoria. Argumente que uma teoria explicativa deve referir causas e não apenas classificações.


XII) Lérias de erros de definição


Usamos definições para tornar os nossos conceitos mais claros. O propósito da definição é enunciar com exatidão o significado de uma palavra. Uma boa definição deve permitir que o leitor a aplique a casos concretos sem ajuda exterior. Por exemplo, suponhamos que queremos definir a palavra “maçã”. Se a definição for bem-sucedida, então o leitor deve poder aplicá-la a cada maçã que existe e só a maçãs. Se o leitor falhar algumas maçãs ou incluir outros objetos (como peras) ou não puder dizer se algo é maçã ou não, então a definição falha. As definições não são argumentos. Por isso, não se pode, com rigor, falar de “Lérias da Definição”. Mas as definições incorretas, por vezes tendenciosas, são muitas vezes incluídas em argumentos tornando-os falaciosos.


41) Léria de definição demasiado lata


A definição inclui mais do que devia incluir.


Exemplos:


· Uma maçã é um objeto vermelho e redondo. (O planeta Marte é vermelho e redondo. Portanto está incluído na definição. Mas é óbvio que Marte não é uma maçã.)


· Uma figura é quadrada se e só se tiver quatro lados de igual comprimento. (Não são só quadrados que têm quatro lados de igual comprimento. Os losangos também.)


Prova: Identifique os termos que está a ser definido. Identifique as condições da definição. Procure um objeto que preencha as condições da conclusão, mas que obviamente não seja uma instância do termo a definir.


42) Léria de definição demasiado restrita


A definição não inclui tudo o que deveria incluir.


Exemplos:


· Uma maçã é algo vermelho e redondo. (Há muitas maçãs, e deliciosas maçãs, que, não sendo maçãs vermelhas, não estão incluídas na definição e deveriam estar.)


· Um livro é pornográfico se e só se contiver fotografias de pessoas nuas. (Os livros escritos pelo Marquês de Sade não contêm fotografias. No entanto, são tidos como pornográficos. Portanto, a definição é demasiado limitada.)


· Uma coisa é música se é apenas se for tocável num piano. (Um solo de bateria não pode ser tocado num piano e, no entanto, não deixa de ser música.)


Prova: Identifique o termo que está a ser definido. Identifique as condições da definição. Apresente um item que seja uma instância do termo, mas não preencha essas condições.


43) Léria de definição pouco clara


A definição é tão ou mais difícil de compreender do que o termo a definir.


Exemplos:


· Uma pessoa é dissoluta se e só se for lasciva. (Pretende-se definir o termo “dissoluta”. Mas o significado do termo “dissoluta” é tão obscuro como o do termo “lasciva”. Assim a definição falha o seu objetivo de clarificação.)


· Um objeto é belo se e só se for esteticamente bem-sucedido. (O termo “esteticamente bem-sucedido” é mais difícil de compreender do que o termo “belo”.)


Prova: Identifique o termo que está a ser definido. Identifique as condições da definição. Mostre que as condições não estão mais claramente definidas do que o termo a definir.


44) Léria de definição circular


A definição inclui o termo definido como parte da definição. Uma definição circular é um caso especial da falta de clareza.


Exemplos:


· Um animal é humano se e só se tem pais humanos. (Pretende-se definir “humano”. Mas para encontrarmos um ser humano temos de encontrar pais humanos. Para encontrarmos pais humanos temos já de saber o que o que é um ser humano.)


· Um livro é pornográfico se e só se contiver pornografia. (Teríamos já de saber o que é a pornografia para dizer se um livro é ou não pornográfico.)


Prova: Identifique o termo que está a ser definido. Identifique as condições da definição. Mostre que pelo menos um termo usado nas condições é o mesmo que o termo que está a ser definido.


45) Léria de definição contraditória


A definição é autocontraditória.


Exemplos:


· Uma sociedade é livre se e só se a liberdade for maximizada e as pessoas forem legalmente obrigadas a tomar a responsabilidade das suas ações. (As definições deste tipo são muito comuns, especialmente na Internet. Mas, se uma pessoa for legalmente obrigada a fazer alguma coisa, já não podemos dizer que a liberdade foi maximizada.)


· As pessoas podem candidatar-se à carta de condução se:


  • não tiverem experiência anterior de condução

  • tiverem acesso a um veículo, e

  • tiverem operado veículos motorizados


· (Uma pessoa não pode ter operado veículos motorizados se não tiver experiência prévia de condução)


Prova: Identifique as condições da definição. Mostre que nem todas podem ser, ao mesmo tempo, verdadeiras. Em particular, parta de uma das condições e, depois, mostre que uma das outras é falsa).


Estas são as 45 lérias do bolsolavismo, que são o “alcorão” de todo o bolsolavista o qual, não está ajoelhado sobre um tapete, rezando para o Olavo virado para a Virgínia, está nas redes sociais colocando suas lérias em prática.


Ritos de Conflagração


Além das lérias, na segunda parte do livro sagrado do bolsolavismo, existem os Ritos de Conflagração, que são feitos para serem usados pelos seus missionários nas redes sociais. Os Ritos de Conflagração são divididos em dobas, que por sua vez são divididos em vogas.


Rito noções de lógica proposicional


A) Dobas de operadores proposicionais


Os operadores proposicionais aplicam-se a uma ou duas proposições para formar novas proposições.


Quando o valor de verdade da nova proposição é determinado unicamente


Pelos valores de verdade das proposições ligadas, e


Pelo operador aplicado,


Diz-se que o operador é vero funcional.


Há cinco operadores proposicionais vero funcionais: negação, conjunção, disjunção, condicional e bi condicional.


1) Voga da negação


Qualquer proposição P pode ser negada mediante o operador negação, gerando uma nova proposição complexa: Não-P


A proposição não P será verdadeira apenas se P for falsa. Será falsa apenas se P for verdadeira. A tabela de verdade de não P é a seguinte:



Figura 1


2) Voga da conjunção


Quaisquer duas proposições, P e Q, podem ser conectadas gerando uma proposição nova e complexa: “P e Q”. A proposição “P e Q” será verdadeira se é apenas se “P” e “Q” forem verdadeiras. Com qualquer outra combinação de valores de verdade será falsa.


A tabela de verdade de P e Q é a seguinte:



Figura 2


3) Voga da condicional


Quaisquer duas proposições, P e Q, podem ser conectadas pelo condicional gerando a nova proposição complexa, Se P, então Q


A proposição se P, então Q é verdadeira se e só se P for falsa ou Q for verdadeira. Só é falsa quando P é verdadeira e Q falsa.


A tabela de verdade de se P, então Q é a seguinte:


Proposição


Uma proposição é o conteúdo verdadeiro ou falso expresso por uma afirmação. Usamos frases para exprimir proposições. Mas nem toda a frase exprime uma proposição: ordens, perguntas, conselhos só em casos especiais exprimem proposições.


Exemplos:


As seguintes frases exprimem a mesma proposição:


· Está a chover.

· Esta llooviendo.

· It is raining.

· Il pleut.


As seguintes frases exprimem a mesma proposição:


· João ama Maria.

· Maria é amada pelo João.


Discussão: Faz sentido pensar numa proposição como o significado de uma frase. O significado de uma frase tem várias componentes:


Denotação: o estado de coisas que a frase afirma ser o caso.


Conotação: os sentimentos, ideias ou emoções provocadas pela frase no auditor.

Ênfase: a importância relativa que o autor atribui aos diferentes elementos da frase. Por exemplo, na frase “O fogo enfurecia-se pelo monte” a denotação da frase é asserção de que um fogo ocorre no monte. A conotação é a de que isso deve ser temido (a palavra “enfurecia-se” implica cólera e perigo). A ênfase desta frase está no próprio fogo. Se tivéssemos escrito “Pelo monte enfurecia-se o fogo” a ênfase estaria no monte.


Os filósofos discutem bastante sobre o significado. Alguns dizem que o significado é apenas a denotação. Outros dizem que é a combinação apenas da denotação e da conotação. Outros ainda dizem que o significado é a combinação dos três — denotação, conotação e ênfase.



Figura 3


4) Voga do bi condicional


Quaisquer duas proposições P e Q podem ser ligadas com o bi condicional, gerando uma nova proposição complexa: P se e só se Q.


A proposição P se e só se Q é verdadeira se é apenas se P e Q tiverem o mesmo valor de verdade — se ambas P e Q forem verdadeiras ou ambas falsas.


A tabela de verdade de P se e só se Q é a seguinte:



Figura 4


B) Dobas de proposição


Uma proposição é o conteúdo verdadeiro ou falso expresso por uma afirmação. Usamos frases para exprimir proposições. Mas nem toda a frase exprime uma proposição: ordens, perguntas, conselhos só em casos especiais exprimem proposições.


Exemplos:


As seguintes frases exprimem a mesma proposição:


· Está a chover.

· Esta llooviendo.

· It is raining.

· Il pleut.


As seguintes frases exprimem a mesma proposição:


· João ama Maria.

· Maria é amada pelo João.


Discussão: Faz sentido pensar numa proposição como o significado de uma frase. O significado de uma frase tem várias componentes:


Denotação: o estado de coisas que a frase afirma ser o caso.


Conotação: os sentimentos, ideias ou emoções provocadas pela frase no auditor.


Ênfase: a importância relativa que o autor atribui aos diferentes elementos da frase. Por exemplo, na frase “O fogo enfurecia-se pelo monte” a denotação da frase é asserção de que um fogo ocorre no monte. A conotação é a de que isso deve ser temido (a palavra “enfurecia-se” implica cólera e perigo). A ênfase desta frase está no próprio fogo. Se tivéssemos escrito “Pelo monte enfurecia-se o fogo” a ênfase estaria no monte.


Os filósofos discutem bastante sobre o significado. Alguns dizem que o significado é apenas a denotação. Outros dizem que é a combinação apenas da denotação e da conotação.

Outros ainda dizem que o significado é a combinação dos três — denotação, conotação e ênfase.


C) Dobas de Valor de Verdade


Uma proposição pode ter um dos seguintes valores de verdade:


· Verdade

· Falsidade


Os filósofos discutem muito sobre o que constitui a verdade. Por agora podemos usar uma caracterização muito simples:


· “P” é verdadeira se é somente se P.

· “P” é falsa se é apenas se não-P.


Exemplos:


· A proposição “A neve é branca” é verdadeira se é somente se a neve for branca.

· A proposição “A neve é branca” é falsa se é somente se a neve não for branca.


Por outras palavras, uma proposição é verdadeira se ela descreve corretamente um estado do mundo, e será falsa se descrever incorretamente um estado do mundo.


Vogas de Tabela de verdade


Uma tabela de verdade mostra o valor de verdade da proposição complexa que resultou da aplicação de um operador lógico a duas proposições mais simples.


Suponhamos que as duas proposições conectadas eram P e Q. Cada uma destas proposições tem dois valores de verdade possíveis: verdade ou falsidade. Isto dá-nos quatro possíveis combinações que estão representadas na tabela que se segue:



Figura 5


Na coluna da direita acrescentaremos a proposição complexa formada pela ligação de “P” e “Q”. Por baixo escreveremos o valore de verdade que ela adquire em cada um dos casos possíveis. Vejamos, por exemplo, a tabela de verdade da proposição complexa “P e Q”



Figura 6


Note-se que a proposição complexa pode ser verdadeira ou falsa em função dos diferentes valores de verdade de P e Q e do operador usado.

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