ADMIRÁVEL MUNDO VELHO?

Atualizado: Ago 10

Estamos vivendo uma distopia política, que é modulada por uma direita alternativa global, com suas raízes conceituais na Hungria e implantação inicial na Itália. O grande “case” deste modelo foi o EUA.


Eu denomino esta rede global como “Democracia Ciborgue” e sua arma principal é a Pós-Verdade.


Esta Democracia Ciborgue é financiada (e autofinancia) investidores globais do Mercado de Capitais, que investem massivamente em seus políticos, empresas de marketing digital, redes sociais, meliantes virtuais anônimos (MAV) e outros, que modulam pessoas resignadas, raivosas e medrosas das redes sociais, para trabalharem como “soldados rasos” sem ao menos terem noção disso.


O autofinanciamento ocorre pela especulação global destes investidores no mercado de capitais, através de movimentos, como as Pós-Verdades, nas redes sociais e imprensa “Fake News” de aluguel. Tudo previamente orquestrado onde estes especuladores globais modulam os movimentos dos mercados se antecipando à maioria dos demais e faturando muito juntamente com seus “traders” e demais “players” financeiros ligados indireta ou diretamente a Democracia Ciborgue. O único detalhe é que economicamente, para a sociedade, isto acaba não produzindo nada, pois é apenas “dinheiro fazendo dinheiro”.


A remuneração dos agentes, não ligados diretamente ao mercado de capitais, se dá por Criptomoedas, contratação de serviços pelo estado e também por linhas de crédito ou isenções concedidas pelo governo. Eventualmente, em casos mais “conservadores”, se dá por corrupção tradicional, tais como “licitações”, “rachadinhas” e outros tipos de remunerações habituais da corrupção pública e privada.


Também são utilizados cargos públicos para a remuneração de soldados não rasos, da Democracia Ciborgue, que podem ser concursados ou apenas comissionados.


Muitas “religiões” com destaque “hors-concours” igrejas empresas evangélicas e seus pastores “CEO” trabalham com e para a Democracia Ciborgue. Estes controlam, além de seus “fiéis” e igrejas, diversas mídias “concedidas” impressas, radiofônicas e televisivas, bem como chegam a participar como acionistas de mídias privadas e comprar espaços publicitários gigantescos em mídias tradicionais.


A modulação nas redes sociais e internet como um todo, incluindo as primeiras posições nos mecanismos de busca, funciona basicamente do niilismo digital, cuja principal característica é uma visão cética radical em relação às interpretações da realidade, que aniquila valores e convicções. Esta forma de manipulação digital vive da crítica e pelo “desmascaramento” nos “revela” a abissal ausência de cada fundamento, verdade, critério absoluto e universal e, portanto, “convoca-nos” diante da nossa própria liberdade e responsabilidade, agora não mais garantidas, nem sufocadas ou controladas por coisa alguma. Mas de fato, na prática ocorre o que pode ser considerado como um movimento “negativo” – quando nesta dinâmica prevalecem os traços destruidores e iconoclastas, como os do declínio, do ressentimento, da incapacidade de avançar, da paralisia, do “vale-tudo” e do célebre silogismo ateísta, mesmo todos eles sendo “tementes a Deus” em suas retóricas conservadoras.


Raramente algum destes ícones da Democracia Ciborgue são:


  • Patriotas: pois trabalham para investidores globais.

  • Conservadores: Pois seus currículos pessoais demonstram histórias nada conservadoras.

  • Cristãos: Pois se comportam como fundamentalistas em uma “guerra santa” de pecados sem limites.

  • Família: Também pelos seus currículos pessoais cheios de “famílias”.

  • Honestos: Bastando ver seus currículos no mundo dos negócios, setor público ou política.

Mas como este grupo vive de silogismos, paralogismos e falácias, estes “detalhes” pouco importam. A hipocrisia é a chave do comportamento dos milicianos da Democracia Ciborgue nas redes sociais.


A Democracia Ciborgue tem uma simetria com o romance distópico “Admirável Mundo Novo” (Brave New World) de Aldous Huxley. O romance antecipa desenvolvimentos em tecnologia, modulação, manipulação psicológica e condicionamento clássico, que se combina para mudar profundamente a sociedade.


Para quem não leu no romance, o personagem Bernard Marx sente-se insatisfeito com o mundo onde vive, em parte porque é fisicamente diferente dos integrantes da sua casta. Num reduto onde vivem pessoas dentro dos moldes do passado uma espécie de "reserva histórica" - semelhante às atuais reservas indígenas - onde se preserva os costumes "selvagens" do passado (que corresponde à época em que o livro foi escrito), Bernard encontra uma mulher oriunda da civilização, Linda, e o filho dela, John. Bernard vê uma possibilidade de conquista de respeito social pela apresentação de John como um exemplar dos selvagens à sociedade civilizada. Para a sociedade civilizada, ter um filho era um ato obsceno e impensável, ter uma crença religiosa era um ato de ignorância e de desrespeito à sociedade. Linda, quando chegada à civilização foi rejeitada pela sociedade. O livro desenvolve-se a partir do contraponto entre esta hipotética civilização ultra-estruturada (com o fim de obter a felicidade de todos os seus membros, qualquer que seja a sua posição social) e as impressões humanas e sensíveis do "selvagem" John que, visto como algo aberrante, cria um fascínio estranho entre os habitantes do "Admirável Mundo Novo".


Existem outras simetrias, que abordarei em textos futuros, com outros romances distópicos famosos: como 1984 (Nineteen Eighty-Four) de George Orwell e Fahrenheit 451 de Ray Bradbury.


O fato é que a Democracia Ciborgue quer transformar o velho em novo.


Um ensaio de 1995 sobre Mussolini e o “Fascismo Eterno”, de Umberto Eco, lança uma luz sobre isso, quando lido em retrospectiva, na Linguagem dos políticos totalitários da Democracia Ciborgue e o uso de metáforas autoritárias. Muitos dos recursos que Eco descreveu como sendo intrínsecos ao fascismo possuem simetria assustadora com a demagogia dos políticos desta nova horda. Um apelo ao nacionalismo e ao “medo da diferença”. Uma rejeição à ciência e ao discurso racional. Uma invocação da tradição e do passado e uma propensão a associar divergências com deslealdade.


Mais simetricamente ainda, Eco escreveu que “Mussolini não tinha nenhuma filosofia, ele apenas tinha retórica”. Era “um totalitarismo indistinto, uma colagem de diferentes ideias filosóficas e políticas, uma colmeia de contradições”. O “Fascismo Eterno” emprega “um vocabulário pobre e uma sintaxe elementar”, acrescentou Eco, “para limitar os instrumentos do raciocínio complexo e crítico”. E considera “o Povo” não como cidadão ou indivíduos, mas como “uma entidade monolítica que expressa à verdade comum”, que o líder finge interpretar. O líder se coloca em primeiro plano como “Voz do Povo” – ao em vez da democracia representativa e a legislatura.


Nós, democratas, não pacóvios, não abdicados, não coléricos, não ímprobos e não poltrões, que não nos escondemos atrás de perfis anônimos nas redes sociais, temos colocar esta mancheia de volta em seus covis.

Copyright © 2020 de Jair Lorenzetti Filho. Todos os direitos reservados. Este site ou qualquer parte dele não pode ser reproduzido ou usado de forma alguma sem autorização expressa, por escrito, do autor.

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