BOLSOCRÁPULAS!

Crápula: Quem não tem escrúpulo(s), patife ou canalha. Crápulas: Reunião de indivíduos que se comportam de maneira torpe. Sinônimo: MAV (milícias em ambientes virtuais).


A técnica de disseminação da Pós-Verdade, para manipulação de massas não é nova. Apenas as redes sociais para enganar os limítrofes o são. Há milênios várias religiões ao longo da história humana, com diferentes deuses e demônios, vêm usando a Pós-Verdade para seus próprios fins.


Nas redes sociais, em vários países, temos crápulas políticos divulgando falsas informações que chegam a causar centenas de milhares de mortes. Como várias religiões já o fizeram ao longo da história da humanidade. Alguns poucos destes crápulas são públicos, trabalham com suas identidades reais, porém a maioria deles é composta por anônimos, seguidos e tendo seus posts espalhados por centenas de milhares de robôs (usuários automatizados por programação), para parecerem muitos e relevantes. Porém todos são apenas anônimos, sem um nome, uma foto real, um CV e nenhuma credibilidade no mundo real para ser levado a sério. Claro que as pessoas com classificação limítrofe para baixo na escala Wechsler, em quantidades já previstas por Nelson Rodrigues, fazendo o que antevia Umberto Eco e comprovando que o condicionamento operante de Skinner é real, seguem estes anônimos, acreditam e reproduzem suas Pós-Verdades no Twitter.


Aqui no Brasil funciona exatamente igual, naquilo que chamamos de bolsonarismo e suas milícias virtuais anônimas nas redes sociais, mas principalmente no Twitter, que aparentemente é extremamente complacente com anônimos, robôs e Pós-Verdades. Eles permanecem ativos e proliferam livremente no Twitter, atraindo, no efeito cardume, mais pacóvios, recalcados e resignados para seu cardume com seus movimentos sincronizados.


Vamos falar um pouco sobre as origens da Pós-Verdade moderna.


Zaratustra, da Pérsia (provavelmente lá pelo século VII a.C.) criou o Madeísmo. Na doutrina zaratustriana, antes de o mundo existir, reinavam dois espíritos ou princípios antagónicos: os espíritos do Bem (Aúra-Masda, Spenta Mainyu, ou Ormuz) e do Mal (Angra Mainyu ou Arimã). Divindades menores, gênios e espíritos ajudavam Ormuz a governar o mundo e a combater Arimã e a legião do mal. Entre as divindades auxiliares, como consta no Avesta a mais importante era Mithra, um deus benéfico que exercia funções de juiz das almas. No final do século III d.C, a religião de Mithra fundiu-se com cultos solares de procedência oriental, configurando-se no culto do Sol.

Arimã é representado como uma serpente. Criador de tudo que há de ruim (crime, mentira, dor, secas, trevas, doenças, pecados, entre outros), ele é o espírito hostil, destruidor, que vive no deserto entre sombras eternas. Aúra-Masda, no entanto, é o Criador original, organizador do mundo de modo perfeito.


Aúra-Masda é representado também como o divino Lavrador, o que mostra o enraizamento do culto na civilização agrícola, na qual o cultivo da terra era um dever sagrado. No plano cosmológico, contudo, ele é o criador do universo e da raça humana, com poderes para sustentar e prover todos os seres, na luz e na glória supremas.

A arte devota zoroastriana apresenta o fundador da religião em roupas brancas e barba comprida.


Bem e Mal não são apenas valores morais reguladores da vida cotidiana dos humanos, mas são transfigurados em princípios cósmicos, em perpétua discórdia. A luta entre Bem e Mal origina todas as alternativas da vida do universo e da humanidade. A vitória definitiva de Aúra-Masda sobre Arimã só poderia ocorrer se Zaratustra conseguisse formar uma legião de seguidores e servidores, forte o bastante para vencer o Espírito Hostil, e expurgar o Mal do universo. Nesse sentido, Bem e Mal são princípios criadores e estruturadores do universo, que podem ser observados na natureza e encontram-se presentes na alma humana. A vida humana é uma luta incessante para atingir a bondade e a pureza, para vencer Angra Mainyu e toda a sua legião de demônios cuja vontade é destruir o mundo criado por Aúra-Masda.


Essa doutrina foi usada, posteriormente para a criação de religiões como o judaísmo, cristianismo e islamismo. Aqui no Brasil temos centenas de religiões caça níqueis, baseadas no cristianismo, que usam a base filosófica zoroastriana para conquistar e manter “clientes”. Sempre usando essa dualidade, a Pós-Verdade original, em suas doutrinas. Como qualquer ateu percebe facilmente, são milênios de experiências bem sucedidas baseados na Pós-Verdade.


Porém, fora do mundo da fé, a Pós-Verdade, perdeu a força com a renascença e voltou à tona com o pós-modernismo.


Eu vou usar as referências dos principais pós-modernistas: Michel Foucault, Jean-François Lyotard, Jacques Derriba, Jean Baudrillard e Richard Rorty. A escola pós-modernista, apesar de sua grande influência, não é muito coesa, por isso vamos focar em protagonistas.


Os pós-modernistas estimularam a ideia de que uma sociedade cada vez mais pluralista precisaria reconhecer e prestar atenção às múltiplas vozes: as histórias de gênero, minorias étnicas, orientação sexual, tradição cultural etc. O pós-modernistas estimularam a questionar e desconstruir a linguagem, o idioma visual, as instituições e o saber adquirido. Embora cheia de jargões, foi parte de um anseio muito maior de dos últimos 30 anos do século XX por inclusividade, diversidade, liberdade pessoal e direitos civis.


Ao mesmo tempo ao questionar a própria noção de realidade objetiva, os pós-modernistas desgastaram muito a noção de verdade. Seus campos de batalhas filosóficos eram a ironia, a superfície, o distanciamento e fragmentação. Basicamente o ideal dos pós-modernistas era a subversão da verdade. Porém nada mais fizeram do que apresentar um novo tipo de relativismo, ajustado a sua época.


Baudrillard fez uma profecia a respeito da mídia social se tornar tanto uma medida de pertencimento como fonte de desinformação, a “notícia falsa”, que foi feita por ele oito anos antes de Tim Berners-Lee inventar a internet e 25 anos antes da criação do Twitter. Em outras palavras, ele já antevia que a tecnologia das comunicações subverteria as noções do real: a Pós-Verdade.


A direita alternativa foi a beneficiaria improvável do pós-modernismo, o qual ela, provavelmente nada ou pouco conhece. E se conhece certamente o menospreza. Porém a ascensão da direita alternativa, ao seu modo, foi o momento pós-moderno supremo.


Na Pós-Verdade da direita alternativa, propagada nas redes sociais, é propagada na forma de “hiper-realidade”, ou seja, o modo de discurso no qual o hiato entre o real e o imaginário desaparece.


A Pós-Verdade alimenta a alienação, o desarranjo e o silêncio entorpecedor frente aos fatos reais. A maior missão cívica que temos pela frente é “esvaziar a calha” desta sujeira.


Esta sujeira são os MAV bolsocrápulas do Twitter!

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