CÂMERAS DE ECO NAS REDES SOCIAIS!

Quando eu era adolescente a fazia o curso de técnico em eletrônica do Instituto Universal Brasileiro, eu ia muito para a Avenida Santa Efigênia comprar coisas como luz negra, luzes sequenciais, luz estroboscópica, além de diversos equipamentos para efeitos de áudio, entre eles o reverberador, também conhecido por câmera de eco.


Nas baladas que eu fazia na casa de praia com tudo isso, a parte de iluminação era ótima, mas a tal câmera de eco... Estragava qualquer música quando ativada. Tudo isso era baseado em eletrônica analógica. Quando venderam o Brasil para os tigres asiáticos, e tivemos a “eugenia” de nossas indústrias eletrônicas analógicas pelos “importabandos” digitais, com um único computador você passava a controlar todas as luminárias e fazer qualquer efeito de áudio facilmente.


O pessoal dos cursos de comunicação, publicidade e jornalismo aproveitou o conceito e atribuiu mais um uso ao mesmo: câmeras de eco ideológicas.

Eu que conheci e usei as câmeras de eco originais, não acho esta analogia boa, mas vamos ao conceito:


“Uma câmara de eco, também conhecido como câmara de eco ideológica, é uma descrição metafórica de uma situação em que informações, ideias ou crenças são amplificadas ou reforçadas pela comunicação e repetição dentro de um sistema definido. Dentro de uma câmara de eco, as fontes dominantes muitas vezes são inquestionáveis e opiniões diferentes ou concorrentes são censuradas ou desautorizadas. As maiorias dos ambientes de câmara de eco dependem de doutrinação e propaganda, a fim de disseminar informação, sutil ou não, de modo a atrapalhar os que estão presos na câmara e a evitar que tenham habilidades de pensamento cético necessárias para desacreditar a desinformação óbvia”.


As empresas jornalísticas, dentro do conceito de “agência de propaganda”, antes das redes sociais ocasionalmente funcionavam como câmeras de eco. Algumas destas agências se adaptaram posteriormente Internet, mas o mercado, na virada do milênio, foi impiedoso com este seguimento.


United Press International (conhecida também como UPI ou United Press) é uma agência de notícias estadunidense fundada em 1907. A empresa possui sua sede em Boca Raton, no estado da Flórida. Foi, juntamente com a Associated Press, a Reuters e a Agência France-Presse, uma das quatro principais agências de notícias do mundo até a década de 1990. Em seu auge, chegou a fornecer fotos, textos, áudios e vídeos a mais de 6.000 assinantes. Desde o primeiro de vários cortes de vendas e funcionários em 1982, e a venda em 1999 da sua lista de clientes para a sua principal concorrente, a Associated Press, a UPI tem se concentrado em nichos menores do mercado jornalístico. Em maio de 2000, a United Press foi comprada pela News World Communications, conglomerado de mídia fundado pelo líder da Igreja da Unificação, Sun Myung Moon, que também foi dono do jornal estadunidense The Washington Times, do sul-coreano Segye Ilbo e do japonês Sekai Nippo.


Com o advento dos sistemas de busca, seguidos pelas redes sociais, as agências de notícias continuam na sua atuação, porém como todo blog “virou jornal” e todo “blogueiro” virou “jornalista”. Toda essa gente agora usa as informações das agências “gratuitamente” diretamente ou através da mídia tradicional da ponta.


As câmeras de eco, primeiro com os sistemas de busca, passaram a reverberar dentro de um conceito mais amplo, denominado bolhas de filtragem. As bolhas de filtragem pegam todo o tipo de informação das pessoas, sem que eles percebam. Com os smartphones potentes e baratos, com internet móvel em quase qualquer lugar, coletam suas localizações, compras, serviços, imagens, vídeos, e-mails, SMS, mensageiros, contatos telefônicos, áudios, com acesso a sua câmera, microfone, memória etc. Isso via sistemas como o Google e Spotlight, que são “íntimos” de seus sistemas operacionais “Android e IOS”.


A partir das suas informações coletadas eles criam um “avatar” seu, e estes são filtrados para bolhas em que se encontram outros “avatares” com pelo menos 90% de características comuns as suas. Seu espelho no mundo virtual. Isso é construído minuto a minuto baseado em suas ações no sistema de busca e sistema operacional. Em constante evolução, pois além dos algoritmos com objetivos limitados, há também as inteligências artificiais, ilimitadas e adaptáveis.


Dentro as bolhas, elas são ainda subdivididas em bolhas menores até chegar a bolhas com quase 100% de similaridade entre as pessoas.


A partir dai estas bolhas começam a disparar e retornar só informações e ações baseadas nas bolhas que você está inserido ressonando nas câmeras de eco de seus grupos “involuntários”.


Nas redes sociais o processo é bastante similar, porém como elas são uma internet dentro da internet, você não tem acesso a informações fora da mesma, como ocorre nos sistemas de busca. Você está preso às pessoas, consumo e as informações da rede social. Com a repetição constante de coisas que lhe interessam, já filtrada para as suas bolhas, você fica nas câmeras de eco internas na continua reverberação com seus grupos de interesses.


As redes sociais criam vários pastos cercados virtuais, para diferentes tipos de gado virtual e os alimenta com a ração virtual que eles querem comer. E os usam economicamente e politicamente. Simples assim. Você é um “Minecraft”.

Segundo pesquisadores:


“Pessoas que participam de grupos fechados em redes sociais, são sujeitas a ver ideias iguais sendo repetidas várias vezes pelos outros membros, assim reforçando aquilo que acreditam. Isso pode criar barreiras para discurso no meio virtual e aumentar bullying entre esses grupos. Segundo Eli Pariser as câmaras de eco são claramente prejudiciais para a consciência pública de questões importantes, já que ele realmente limita quem pode descobrir informações relevantes sobre certos eventos. Além disso, situações em que as pessoas são expostas apenas a informações que reforçam suas crenças atuais causam polarização, pois os indivíduos se tornam mais convencidos de sua ideia quando não estão vendo um conjunto diversificado de pareceres de especialistas.”


Quando o tema é político a situação é ainda pior.


O grande “boom” das câmeras de eco e bolhas de filtragem dentro das redes sociais se deu em 2016, no período do “Brexit”.


Tom Steinberg, especialista em tecnologias e impacto social e fundador do MySpace, procurou em suas redes sociais algum exemplo de pessoas comemorando os resultados do Brexit. Não encontrando nenhum ele deixou um apelo em sua rede social:


“Eu estou procurando ativamente através do meu Facebook por pessoas celebrando a vitória do Brexit, mas a bolha de filtro é TÃO forte, e se estende por TÃO longe em direção a coisas como a busca customizada do Facebook que eu não consigo encontrar ninguém que esteja feliz apesar do fato de que mais da metade do país está claramente jubilante hoje e apesar do fato de que eu estou ativamente procurando ouvir o que eles têm para dizer. Esse problema de câmera de eco é agora TÃO severo e TÃO crônico que eu apenas posso implorar para qualquer amigo que eu tenho que realmente trabalhe para o Facebook e outras significativas mídias sociais para urgentemente falar para seus líderes que não agir sobre esse problema agora significa apoiar ativamente e financiar a ruptura do tecido de nossas sociedades. Simplesmente por que eles não são como anarquistas ou terroristas – eles não estão fazendo essa ruptura de propósito – não é desculpa – o efeito é o mesmo, nós estamos criando países onde uma metade não sabe nada a respeito da outra metade. Está nas mãos de pessoas como Mark Zuckerberg fazer algo a respeito disso, se eles forem fortes o bastante e inteligentes o bastante para trocar um pouco do seu valor para os acionistas pelo bem-estar de nações e do mundo como um todo.”

Eleições de estapafúrdios com Trump, Bolsonaro, Boris Johnson e outros, usando a democracia ciborgue, para disseminar pós-verdades, informações maliciosas, desinformações, mentiras e fake news, comprovam o funcionamento das bolhas artificialmente infladas e reverberações nas câmeras de eco, usando automações disponibilizadas e permitidas pelas próprias redes sociais, bem como conteúdos e perfis promovidos.


Visivelmente as MAV (Milícias Virtuais Anônimas), dentro destas bolhas artificiais reverberadas por câmeras de eco automatizadas e promovidas, são provas cabais de que os sectários anuviados dentro delas, praticaram cyber crimes como haters, bullying, stalking, doxing e muitos mais, desumanizando e atacando quem não faz parte das suas bolhas. São os soldados de democracia ciborgue.


O mais grave é que existem agências de marketing digital e até “autônomos” trabalhando nas automações, alimentando algoritmos e levantando hashtags a pagamento não oficialmente promovido, mas com a conivência “suspeita” das redes sociais, seus empresários e financiadores.


Porém as empresas que anunciam nas redes sociais, não seus empresários e patrocinadores que ganham delas, começaram a se levantar contra as práticas de incivilidade destes grupos, e o bolso é um bom caminho para que estes empresários, das redes sociais, passem a utilizar seus algoritmos e ferramentas de inteligência artificial não para isolar, mas para integrar.


Mas uma coisa é clara, ninguém pode ficar anônimo / mascarado nas redes sociais, como não pode ficar no mundo real. Se ele praticar crimes precisa ser identificado facilmente e punido, com as mesmas leis do mundo real. Se as pessoas possuem RG precisam também possuir certificação digital. É o único caminho seguro para que as pessoas não só tenham direitos na internet, mas que também tenham obrigações.

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