DITADURAS DIGITAIS!

Atualizado: Out 22

Sou Geração X, portanto não tem cabimento eu falar de ditaduras nas quais eu só vi em livros de história ou documentários. Vou me abster do que vi da metade dos anos setenta em diante, quando já tinha alguma percepção mais objetiva sobre o mundo, apesar de ainda pré-adolescente. Também vou estringir ao Brasil, apesar de minhas experiências no exterior.


Quando eu aprendi a ler, lá nos anos setenta em escolas particulares e com professores muito superiores as médias atuais, eu logo me tornei um leitor compulsivo. Eu já era assinante da revista “O Cruzeiro Infantil” enquanto meus colegas no máximo liam a “Turma da Mônica”. E em meu colégio, tive a sorte de ter professoras de excelentes, que já lecionavam literatura desde a terceira série do primário. Li todos os livros da editora “Ática” neste período. No colegial a coisa melhorou ainda mais, pois minha professora de redação / literatura era também professora doutora da PUC-SP. Então li e fiz provas sobre livros como “Grande Sertão Veredas”, “Sagarana” e até “Cobra Norato”. E posteriormente, já nas universidades, especificamente no curso de Administração de Empresas da PUC, que na época tinha cinco anos, tive um ano de ciclo básico onde estudei Antropologia, Sociologia, Filosofia, Metodologia Científica, Estudo de Problemas Brasileiros e até teologia (foi ai que me tornei ateu), isso entre muita política e muita leitura de grandes mestres das ciências humanas.


Nos demais cursos de graduação, pós-graduação, extensão e academias que participei no Brasil e exterior, o foco era tecnologia e negócios, conforme minha carreira profissional requeria.


Mas mesmo na minha vida fora dos estudos, desde que aprendi a ler, eu assinava diversos jornais e revistas: Folha, Estadão, Jornal da Tarde, Veja, Cruzeiro, Exame etc. Também assinava revistas como Planeta, UFO, Geográfica Nacional, Rock Brigade, SciFi News e outras que nem recordo o nome. Isso sem falar nas revistas masculinas antes dos 18 (graças a uma família de jornaleiros amigos no estacionamento do antigo supermercado Gonçalves Sé), MAD, Pancada, Chiclete com Banana, Los Três Amigos, Mafalda, Calvin & Haroldo etc.


Ler, para mim sempre foi essencial, assim como música, diga-se a galeria do rock e milhares de discos, fitas e CDs que comprei.


E vivi assim inclusive dentro da ditadura militar, que não me trouxe nenhuma adversidade em termos de eu ter acesso as leituras que eu quisesse.


Até hoje tenho um péssimo hábito de ainda comprar parte dos livros que leio de papel, pois apesar de ter um tablet com 15 polegadas, gosto do cheiro do livro e de folear. Mas estou me corrigindo.


Fui pioneiro na digitalização da sociedade, inicialmente no mundo empresarial. Implantei sistemas de gestão empresarial em empresas brasileiras e internacionais, no Brasil e exterior. Antes disso fui gestor de fábricas de software que produziam os mesmos sistemas. Todo o compendio de economia-tecnologia da digitalização das empresas e algumas vezes até governo são os primeiros dois terços de minha carreira.

Depois passei para o topo da pirâmide empresarial, onde a tecnologia-economia passou a ter a companhia da política e foi ai que comecei a entender para onde estávamos indo.


Com o mundo dos negócios já todos digitalizado, o caminho natural foi digitalizar o mundo das pessoas. Foi ai que empresas como Microsoft e Oracle não foram, uma por serem reféns de desktops e outra de servidores, ao passo que empresas como Apple, Google, Amazon, Facebook e Twitter foram, nos celulares e tablets, onde o IOS e o Android dominaram o mercado dos sistemas operacionais invasivos.


No caso da Apple, uma velha fã de hardware e sistemas proprietários, falamos de um sistema operacional completamente vinculado ao hardware e aplicativos desenvolvidos unicamente para a mesma, nada de portabilidade. No caso do Google temos um sistema operacional para múltiplas plataformas e fabricantes. O desenvolvimento de aplicativos apesar de ser mais amplo, tem o controle do Google para entrar no Play Store.

Mas o fato é que os dois sistemas operacionais controlam integralmente os hardwares nos quais estão instalados, fornecendo as permissões para os aplicativos, apesar de não obrigatórias, se você quiser os utilizar terá que conceder.


Basicamente os celulares padrões smartphone, com acesso móvel a internet, sabem onde você está mesmo com o serviço de localização desligado, basta apenas levantar a telemetria das conexões das antenas que a parte de telefonia de seu celular se conectou, o governo de São Paulo já utilizou este recurso no isolamento da pandemia inclusive. Nos EUA, é comum fazer isso nas manifestações.


Mas você estando com o serviço de localização ligado, mesmo que seu celular não esteja ligado, não impede que o sistema operacional esteja funcionando em background e interagindo com provedores de serviços digitais. Os smartphones nunca estão desligados, o botão “liga-desliga” dos mesmos não corta a ligação com a bateria, corta apenas a GUI (Graphic User Interface) do celular com o usuário. A “liga-desliga” do celular apenas o inicializa para interagir com você.


Os equipamentos celulares smartphones conseguem saber sua localização, detectar movimentos manuais seus, ouvir tudo que ocorre ao redor deles, bem como ver, saber tudo o que você faz no celular e na internet, saber que aplicativos você tem e quando os utilizar, quem são seus contatos pessoais, seus documentos digitalizados na memória, vídeos, áudios e qualquer arquivo mais. Nada impede que ele escute a sua conversa telefônica, leia seus e-mails e tenha acesso a quaisquer informações que você tenha em seus aplicativos, inclusive nas redes sociais Facebook, Instagram, Twitter, TikTok, Youtube, Whatsapp etc. Isso sem falar quando você faz buscas no mecanismo de buscas do Google e todas as coisas que você tiver no drive e no docs. E muito mais!

Os próprios aplicativos que funcionam no Android passam suas informações através de APIs do próprio Android, ou seja, o Google conhece até suas ações no Tinder, se for o caso.


Isso já acontecia num grau muito menor nos computadores pessoais com Windows, mas a mobilidade, as dimensões, a potência e recursos dos smartphones e tablets levaram isso para outro patamar de invasão das vidas pessoais. E no IOS da Apple é a mesma coisa. O Android nada mais é do que uma cópia do que a Apple já fazia desde sempre, porém muito mais agressivamente.


Em termos de manipulação digital, o Google, com seus vários tentáculos, vai arquivando suas informações pessoais em Big Data, modulando com Deep Learning e Manipulando com Machine Learning. Assim através do Google ads, entre muitos outros recursos, ele vende sua audiência para anunciantes que tenham “aderência” com as coisas que lhe interessam. Por isso que muitas vezes temas relacionados à suas buscas no Google, no seu Gmail ou outros tentáculos aparecem para você “misteriosamente” na forma de anúncios. Isto em sites que você navega que não tem nada a ver com o Google, mas vendem espaço de anúncio para o mesmo.


Nas redes sociais, que estão abaixo do Google em termos de colecionar seus dados pessoais, a coisa funciona mais em relação ao seu comportamento. As redes sociais levam para a Big Data seus dados comportamentais, que são modulados por Deep Learning e manipulados por Machine Learning. Enquanto o Google trabalha mais em um marketing “one-to-one”, as redes sociais precisam de grupos de pessoas interagindo, por esta razão, baseado nos comportamentos, ela cria bolhas de filtragem, onde interagem pessoas com comportamentos parecidos nas câmaras de eco (ressonância), que conhecemos com TL e sugestões para seguir.


As redes sociais precisam de “tribos” para as quais elas modulam informações e pessoas que interessam as tribos e também, baseado nas tendências identificadas nestas tribos pela IA, criam as novas “ondas” que aumentam o engajamento e o ativismo das tribos, que na prática são os funcionários, que produzem conteúdos para as redes sociais, clientes, que consomem os conteúdos e produtos, para terem suas informações vendidas para anunciantes que tenham sinergia comportamental com os mesmos ou em termos de produtos ou serviços.


O resultado deste mundo, criando pelas Big Techs sociais (não as empresariais), é um mundo no qual as pessoas nunca aprendem ou evoluem, mas apenas ficam dentro de cercadinhos recebendo a mesma ração sempre no mesmo espaço restrito. E não sejamos sonhadores, mesmo no pequeno meio de pessoas com formação acadêmica técnica, poucas pessoas terão a sensibilidade para perceber isto. Imaginem então como fica a maioria da população que luta pela sobrevivência e não tem acesso a informações e formação de qualidade.


Este mundo criado pelas Big Techs por si só já criou legiões de pessoas alienadas e anuviadas, que se informam unicamente por estas empresas que lhe fornecem apenas variações do que elas já sabem. Mas o problema não acaba por ai.

Estamos falando na tríade tecnologia-política-economia.


Chegamos então na Democracia Ciborgue.


Há décadas o mundo vem caminhando para um caminho progressista, social, ambiental, inclusivo, politicamente correto, democrático e principalmente para reduzir as desigualdades. E não cabe aqui dizer que isso é direita, centro ou esquerda, pois qualquer ser com QI superior a 80 sabe que estes sectarismos ideológicos são apenas para criar torcidas e manipular rebanhos eleitorais. Estas são causas da humanidade e não de ideologias políticas bidimensionais. As pessoas vivem num mundo em três dimensões, onde estes posicionamentos são relativos e não absolutos.


A Democracia Ciborgue é composta basicamente por grandes players econômicos que têm muito a perder por um caminho progressista global. Estes agentes estão principalmente no Mercado de Capitais, como investidores institucionais pontuais diretamente ou através de fundos, especulando ao redor do mundo para maximizar suas fortunas. Estes são os reais agentes da globalização. E a base de apoio destes grupos são justamente os que perderam com a globalização, vendo seus empregos irem parar na Ásia por pessoas que ganham 10% do que estes ganhavam.


Esta Democracia Ciborgue está por trás de quase todas as empresas de capitais aberto do mundo que compensam especular com compra e venda de ações, influenciadas por informações plantadas pelos mesmos através das empresas Big Techs Sociais, que coincidentemente têm os mesmos investidores institucionais. Nada como informação privilegiada e antecipada plantada por si mesmo para negociar no mercado de capitais.

Com isso as mídias sérias tradicionais e profissionais se tornam inimigas mortais da Democracia Ciborgue, pois essa não precisa da Verdade e sim da Pós-Verdade para seus objetivos, em casos extremos até das Fake News e fraudes virtuais.


As pessoas resignadas, recalcadas, cheias de inveja e ódio por conta de terem ficado na estação quando o trem da globalização passou, são a massa de manobra virtual desta Democracia Ciborgue, sem perceber que a Democracia Ciborgue é a causa real de seus problemas.

Usando toda a infraestrutura de Big Data e IA das Big Techs Sociais, juntamente com integrações por APIs para automações, empresas de marketing digital contratada e animadores de auditório virtuais anônimos ou não, todos direta ou indiretamente contratados, a Democracia Ciborgue, usando teorias conspiratórias, Pós-Verdades, Religião (principalmente as evangélicas), preconceitos, desinformação, mentiras, fragilidade intelectual e / ou emocional das pessoas, problemas econômicos e mais uma série de coisas da “vida como ele é”, vem modulando e manipulando estas milícias virtuais regressistas.

A incongruência lógica destes grupos é incompreensível. Declaram-se direita sendo que o nazismo e o socialismo não mais existem. Declaram-se conservadores, mas cultuam um presidente que praticamente nunca trabalhou na vida, viveu assalariado pelo estado sem quase nada produzir, casou três vezes, com filhos em todos os casamentos, inclusive um até feito em transição, com escolha religiosa evangélica oportuna apenas para casar com a terceira esposa 27 anos mais jovem. E nem vamos citar o guru intelectual dele, ainda pior.


Pior ainda são as ações virtuais de ódio, bullying, stalking, doxing, falsificações, fraudes, mentiras, cancelamentos e perseguições destes cristãos da inquisição evangélica virtual conservadora de direita. E o passado idílico que quixotescamente defendem só existe em contos de fadas. E por fim o complexo de super-heróis, usando personagens da Marvel DC Comics, Mangas e Videogames, só que esquecendo que no mundo real quem usa máscaras são bandidos e não policiais.


Visivelmente é um grupo artificial, sem nenhuma base político-ideológica factual, apenas um apanhado de jargões, memes, falácias, silogismos, paralogismos, Pós-Verdade e Fake News articuladas a partir de núcleos de trabalho remunerados. Não há nada espontâneo na Democracia Ciborgue, que no Brasil começou pela internet no segundo governo Dilma, que resultou no justo impeachment, que é um processo político. Grupos como Revoltados Online, Vêm Pra Rua, Nas Ruas, MBL, Direita SP e outros foram os pioneiros da Democracia Ciborgue no Brasil. Já existiam alguns ativistas virtuais na época do lulopetismo, mas nada no mesmo grau de agressividade e Pós-Verdades que as Milícias Anônimas Virtuais praticam hoje.


Temos um Bolsonaro eleito e em constante campanha política, desde seu primeiro dia de governo, visando a sua reeleição ou de alguém de seu clã. O desgoverno e a destruição das instituições, o crash econômico e a saúde ficam ofuscados pelas crises diárias, que o bolsonarismo gera nas mídias sérias e são defendidas sem nenhuma racionalidade, honestidade e pudor, pelas milícias virtuais, jornalistas de aluguel, blogs chapa branca imitando imprensa, emissoras de televisão, rádios e influenciadores monetizados. E ressaltemos o trabalho feito pelas igrejas evangélicas brasileiras, aquelas religiões empresas caça-níqueis, com pastores empresários e ricos que operam até no mercado de capitais e possuem redes de rádio e televisão.


Estamos vivenciando uma ditadura digital, no qual os ricos estão cada vez mais ricos, a desigualdade só aumenta, mesmo assim, as pessoas moduladas e manipuladas digitalmente pelas Big Techs sociais não conseguem ter a menor percepção que estão perdendo cada vez mais, pelo contrário ainda se acham vitoriosos. São os idiotas digitais perfeitos.


O cenário futuro para mim ainda é mais pessimista, mesmo com algumas vitórias parciais de governos e da justiça contra as empresas Big Techs sociais:


· Na UE o Google foi obrigado a ocultar os nomes das pessoas que não quiserem estar no seu buscador. Coisa que não temos direito no Brasil mesmo o Google ganhando dinheiro com nossos nomes em seu buscador.


· O Google se recusa e fornecer informações a justiça que podem elucidar o caso Mariele Franco.


· E agora o departamento de justiça dos EUA quer processar o Google por monopólio nos mecanismos de busca (https://g1.globo.com/economia/tecnologia/noticia/2020/10/20/eua-planejam-abrir-processo-antimonopolio-contra-o-google-dizem-jornais.ghtml).


· https://link.estadao.com.br/noticias/empresas,entenda-como-o-monopolio-do-google-afeta-as-suas-buscas,70003483395


São pouquíssimas as ações em relação à ditadura digital que estas empresas Big Techs, seus investidores e patrocinadores promovem pelo planeta por seus interesses econômicos privados.


A realidade é que estas empresas Big Techs sociais são a maior arma do capital especulativo global contra a redução da desigualdade global.


Precisamos buscar alternativas para enfrentar a ditadura digital, muito pior que nazismo e socialismo.


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