OS FILHOTES DA DITADURA!

Antes de começar o texto, convém deixar claro que não citarei Diderot, Lévi-Strauss, Weber, Raelianismo, Ordo Templi Orientis, Je vous salue Marie, neoísmo, A Clockwork Orange, Freaks, Repulsion e Un chien andalou. Se quiserem ver estas referências terão que assistir aos vídeos do meu amigo Luciano Ayan. Aqui o negócio é na linha Sharknado.


Eu nasci já durante o regime de 64, não presenciei como foi antes durante e no começo, mas presenciei bem como foi da minha infância até ate minha jovem maioridade.

Lembro que todo mundo tinha medo de polícia e militares, menos os bandidos, que trabalhavam sem problemas assaltando casas de alto padrão. E não adianta falar que eles eram comunistas, pois você conseguia até comprar de volta o que roubaram em uma delegacia.


Eu lembro que minha mãe contratou uma “babá” terrivelmente linda, na minha infância, que provavelmente foi a minha primeira musa junto com a mulher gato do Batman da série de TV. Porém minha “babá” não durou muito, um dia apareceu á irmã dela lá em casa e falou que os militares levaram-na por conta dela participar de um grupo de estudos sobre existencialismo na USP, onde fazia filosofia. Ela nunca mais apareceu.


Eu pessoalmente nunca tive problema com militares e policiais talvez por ter alguns parentes oficiais no Exército (SNI), Aeronáutica e Marinha. Também tinha primos na Polícia Civil e Polícia Federal. Só faltava na Polícia Militar.


Meu pai era um empresário respeitado já antes de eu nascer aqui em São Paulo, com várias honrarias pessoais concedidas, por exemplo, pela CMSP e ALESP.


Mas minha vida cultural foi dura, pois os filmes que eu ambicionava ver tinham censura para depois da meia noite e eram cheios de cortes broxantes. Era um negócio chamado “Cinema Brasileiro Proibido”, na extinta Rede Tupi, canal 4 o qual foi centena de vezes superior que atual SBT. Naquela época as “rainhas da pornochanchada” eram jovens e consideradas lindas. Se você assistisse, sem dormir, a partir da meia noite, com a tevê baixinha e no escuro, para seus pais não acordarem, com sorte, conseguiria ver um peito de relance. No cinema nem pensar, pois passavam às 23 horas e precisava ser maior de 21 anos para entrar. Um amigo que trabalhava de Office-Boy na empresa da família, me dizia que ele ia ao centro de São Paulo e conseguia ver filmes pornográficos com “xerox” de identidade alterada. Porém tinha o problema que havia muitos caras transando dentro do cinema. Por razões pessoais resolvi não ir. Nunca fui homofóbico, já naquela época tinha muitos ótimos amigos gays, porém no colégio Meninopolis, saunas masculinas, maçonaria e todos os lugares que só entravam meninos, eu achava que não era para mim. Eu queria as meninas!


Depois, já na maioridade com acesso real as namoradas de esquerda, que eram sempre as mais bonitas e inteligentes, carro e motel (eventualmente Driven), eu tirei o atraso, porém voltando na madrugada era invariavelmente abordado por soldadinhos da PM com inveja do meu carro e namorada lindos. Eu nunca bebi, fumei ou usei qualquer droga, pois eu fui atleta federado e selecionado. Não havia nenhuma suspeita para uma “batida” num carro esportivo novo, mais caro do Brasil, com uma ou mais meninas lindas comigo dentro. Era puro recalque, resignação e inveja. Infelizmente com uma funcional de R2, que eu tinha conseguido após o CPOR – SP, tudo terminava em um breve “carteirada” e continência...


Confesso que como presidente de Centro Cívico no colégio e Diretório Acadêmico nos graduações, tive algumas desavenças com um pessoal de extrema esquerda exagerado nas manifestações (não as meninas, mas os caras, matar e fritar carne de gato no campus não dava). Mas nada que um telefonema para o Coronel Erasmo Dias não resolvesse.


Durante meus cursos de graduação, o regime militar acabou. A economia, que já vinha ruim, permaneceu ruim, porém gradativamente a repressão a minha vida sexual e cultural foram desaparecendo.


Fui sempre assim, vendo a política em 3D, ao contrário do pessoal 2D que só enxerga linearmente pontos da linha da esquerda até o centro e dai até a direita.

Eu queria cultura, não importa o viés político, namoradas, também sem importar o viés político e viver com sabedoria, cientificamente sem nenhuma religião para me fazer de gado irracional.


Quando vejo os atuais bolsonaristas conservadores, os quais pelas idades vão de anteriores até meados da ditadura (excetuando-se os jovens religiosos anuviados bolsonaristas conservadores), não consigo entender o saudosismo dessa gente.


Eu certamente, neste período de ditadura, tive uma vida melhor que a grande maioria deles e não tenho nenhuma saudade, pelo contrário.


Será que eles sabem realmente o que querem? Os filhotes da ditadura?


Copyright © 2020 de Jair Lorenzetti Filho. Todos os direitos reservados. Este site ou qualquer parte dele não pode ser reproduzido ou usado de forma alguma sem autorização expressa, por escrito, do autor.

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