PÓS VERDADE CONCEITOS

Atualizado: há 6 horas

Preâmbulo


A pós-verdade consiste na relativização da verdade, na banalização da objetividade dos dados e na supremacia do discurso emocional. (José Antonio Zarzalejos)


O passado, quando não mais ilumina o futuro, deixa o espírito andando nas trevas. (Tocqueville).


Pós-verdade é um neologismo que descreve a situação na qual, na hora de criar e modelar a opinião pública, os fatos objetivos têm menos influência que os apelos às emoções e às crenças pessoais. Na cultura política, se denomina política da pós-verdade (ou política pós-factual) aquela na qual o debate se enquadra em apelos emocionais, desconectando-se dos detalhes da política pública, e pela reiterada afirmação de pontos de discussão nos quais as réplicas fáticas — os fatos — são ignoradas. A pós-verdade difere da tradicional disputa e falsificação da verdade, dando-lhe uma "importância secundária". Resume-se como a ideia em que “algo que aparente ser verdade é mais importante que a própria verdade”.Para alguns autores, a pós-verdade é simplesmente mentira, fraude ou falsidade encobertas com o termo politicamente correto de "pós-verdade", que ocultaria a tradicional propaganda política.


A questão da pós-verdade relaciona-se com a dimensão hermenêutica na fala de Nietzsche, admitindo-se que "não há fatos, apenas versões". A busca pela suposta verdade passa a segundo plano, ganhando expressão o perspectivismo de Foucault e as teorias da dissonância cognitiva e percepção. Atualmente, em ciências humanas e sociais, a discussão ganha importância com a agonística, que investiga e analisa o contexto social através da teoria dos jogos. Conceitos clássicos acerca do domínio dos fatos, da verdade, da informação e da esfera pública são, portanto, ressignificados.


Em 2016, a Oxford Dictionaries, departamento da Universidade de Oxford responsável pela elaboração de dicionários, elegeu o vocábulo "pós-verdade" como a palavra do ano na língua inglesa. Segundo a mesma instituição, o termo “pós-verdade” com a definição atual foi usado pela primeira vez em 1992 pelo dramaturgo sérvio-americano Steve Tesich. O termo tem sido empregado com alguma constância desde meados da década de 2000, mas houve um pico de uso da palavra com o crescimento das mídias sociais. Só no ano de 2016, por exemplo, houve um crescimento 2.000% no uso do termo.


Caput I


A divulgação de falsas notícias conduz a uma banalização da mentira e, deste modo, à relativização da verdade. O valor ou a credibilidade dos meios de comunicação se vêem reduzidos diante das opiniões pessoais. Os acontecimentos passam a um segundo plano, enquanto o “como” se conta a história ganha importância e se sobrepõe ao “o quê”. Não se trata, então, de saber o que ocorreu, mas de escutar, assistir, ver, ler a versão dos fatos que mais concorda com as ideologias de cada um. (José Antonio Zarzalejos. A era da pós-verdade: realidade versus percepção. Uno, n.º 27, 2017).


Caput II


O populismo de hoje, e de sempre, maneja mais com as persuasões emocionais do que com critérios de racionalidade e de veracidade. O rigor e o populismo são conceitos contraditórios. (José Antonio Zarzalejos. A era da pós-verdade: realidade versus percepção. Uno, n.º 27, 2017).


Caput III


Certamente, na política, a mentira ou a meia-verdade sempre foram recursos manejados com desenvoltura, mas agora, a resposta ao status quo político e econômico introduziu elementos sentimentais, emotivos, em suas falsas mensagens, enriquecendo-as de uma força arrasadora. (José Antonio Zarzalejos, 2017).


Caput IV


O presente, sempre fugitivo, constitui-se atualmente como principal representação do tempo, símbolo de uma sociedade que perdeu sua crença na história. Como se o passado, definitivamente terminado, nada mais tivesse a dizer, e que o futuro, decididamente demasiado incerto, não exigisse ser construído a partir de hoje. Como se o passado não exigisse mais ser interpretado à luz das exigências do futuro enraizado na experiência do passado. Mergulhados nesta brecha do presente, nossas sociedades parecem órfãs da história, privadas de duração, dedicadas unicamente ao frenesi do instante, condenadas a viver no ritmo sôfrego da atualidade. (François Ost. O Tempo do Direito. EDUSC, 2005).


Caput V


Além da busca da verdade que conduz o gênero histórico a dissociar-se da ficção, é a uma procura de explicação do caos, a uma tentativa de ordem explicativa que os historiadores se entregam desde a Antiguidade. A história identifica-se com essa investigação das causas desde Políbio, no século 2.º a.C.


Caput VI


Mas nada de mais frágil que esta aliança entre o passado e o futuro; a “crise de cultura” propicia o cisma entre tempos, que parecem nada mais ter a se dizer; um passado repentinamente tornado estranho, um futuro opaco e improvável – e entre os dois: um presente reduzido às pancadas do instantâneo, aos sobressaltos da urgência, à insignificância do dia-a-dia. Igualmente trata-se de um lance ético – e logo político e jurídico – de manter as duas extremidades da corrente, garantir que se prossiga o diálogo entre a memória e a expectativa, pois “uma sociedade deve ser capaz de história”, escrevia Hegel, ao qual Durkheim fazia eco: “Sem duração, não há sociedade que possa ser consistente. (François Ost. O Tempo do Direito. EDUSC, 2005).


Caput VII


Mentira tôda ela. Mentira de tudo, em tudo e por tudo. Mentira na terra, no ar, até no céu, onde, segundo Padre Vieira, que não chegou a conhecer o Dr. Urbano dos Santos, o próprio sol mentia ao Maranhão, e diríeis que, hoje, mente ao Brasil inteiro. Mentira nos protestos. Mentira nas promessas. Mentira nos programas. Mentira nos projetos. Mentira nos progressos. Mentira nas reformas. Mentira nas convicções. Mentira nas transmutações. Mentira nas soluções. Mentira nos homens, nos atos e nas cousas. Mentira no rosto, na voz, na postura, no gesto, na palavra, na escrita. Mentira nos partidos, nas coligações e nos blocos. Mentira dos caudilhos aos seus apaniguados, mentira dos seus apaniguados aos caudilhos, mentira de caudilhos e apaniguados à nação. Mentira nas instituições. Mentira nas eleições. Mentira nas apurações. Mentira nas mensagens. Mentiras nos relatórios. Mentira nos inquéritos. Mentira nos concursos. Mentira nas embaixadas. Mentira nas candidaturas. Mentiras nas garantias. Mentira nas responsabilidades. Mentira nos desmentidos. A mentira geral. O monopólio da mentira. Uma impregnação tal das consciências pela mentira, que se acaba por se não se discernir a mentira da verdade, que os contaminados acabam por mentir a si mesmos, e os indenes, ao cabo, muitas vêzes não sabem se estão, ou não estão mentindo. Um ambiente, em suma, de mentiraria, que, depois de ter iludido ou desesperado os contemporâneos, corre o risco de lograr ou desesperar os vindouros, a posteridade, a história, no exame de uma época, em que, à fôrça de se intrujarem uns aos outros, os políticos, afinal, se encontram burlados pelas suas próprias burlas, e colhidos nas malhas da sua própria intrujice, como é precisamente agora o caso. Já se entoou no parlamento republicano o panegírico do jôgo. Já se lavrou na imprensa da atualidade a apologia da perfídia. Ainda não se ensaiou, numa tribuna ou na outra, a glorificação da mentira. Mas há de vir. Há de estar próxima. Já tarda. Não se concebe que se haja demorado tanto. É a justiça da nossa época a si mesma. Pelo hábito de preterir a tudo, acaba ela sem fim, destarte, preterindo a si própria. (Rui Barbosa - Reino da Mentira Trecho - 1919)


Caput VIII


Os extraordinários avanços científicos e tecnológicos do século passado, recebidos não apenas como valiosos, mas também como prioritários, relegaram os estudos humanísticos a um lugar secundário. A globalização econômica e a consequente submissão de todos os países à lógica do mercado tendem agora a desferir o golpe definitivo contra esse tipo de estudo. Os tomadores de decisões -políticos, economistas, cientistas, tecnocratas- perguntam cada vez mais: para que servem as humanidades? Submetidas ao critério de uma utilidade imediata, identificada com um bem-estar do homem baseado apenas no acesso às conquistas da ciência e da tecnologia, assim como no bom funcionamento do mercado, as humanidades passaram a ser vistas como um luxo, uma perfumaria, uma inutilidade. (Leyla Perrone-Moises, na edição da Folha de São Paulo do dia 30 de junho de 2002).


Caput IX


Alguém precisa tomar a frente. É fácil acompanhar a maioria. Pode parecer estranho fazer ou dizer algo diferente. Mas sem essa inquietação não existe liberdade. No momento em que você dá o exemplo, quebra-se o encanto exercido pelo statu quo, e outros o imitarão. (Timothy Snyder. Sobre a tirania: Vinte lições do século XX para o presente).


Caput X


Evite proferir as frases que todo mundo usa. Reflita sobre sua maneira de falar, mesmo que apenas para transmitir aquilo que você acha que todos estão dizendo. Faça um esforço para afastar-se da internet. Leia livros.


(…)


Reflita sozinho sobre as coisas. Dedique mais tempo aos artigos longos. Prestigie o jornalismo investigativo assinando jornais e revistas. Perceba que parte do que a internet oferece está ali para enganá-lo. Descubra páginas na rede que investigam campanhas de propaganda (algumas dessas campanhas vêm do exterior). Responsabilize-se pelo que você comunica às pessoas. (Timothy Snyder. Sobre a tirania: Vinte lições do século XX para o presente).


Caput XI


Há mais de meio século, os romances clássicos sobre o totalitarismo advertiram quanto à dominação das telas, à supressão dos livros, ao estreitamento do vocabulário e às dificuldades subsequentes de pensar. Em Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, publicado em 1953, bombeiros procuram e queimam livros, enquanto a maioria dos cidadãos assiste à televisão interativa. Em 1984, de George Orwell, publicado em 1949, os livros são proscritos e os televisores são, ao mesmo tempo, receptores e transmissores, o que permite ao governo vigiar os cidadãos constantemente. Em 1984, a linguagem dos meios visuais é altamente limitada, de modo a negar ao público os conceitos necessários para refletir sobre o presente, recordar o passado e antever o futuro. Um dos projetos do regime consiste em limitar a linguagem ainda mais, eliminando um número cada vez maior de palavras a cada edição do dicionário oficial. Olhar para telas talvez possa ser inevitável, mas o mundo bidimensional faz pouco sentido, a menos que possamos recorrer a um arsenal mental formado em outro lugar. Quando repetimos as mesmas palavras e frases que aparecem nos meios de comunicação diários, aceitamos a ausência de um quadro referencial maior. Dispor desse quadro referencial exige mais conceitos, e ter mais conceitos exige leitura. Por isso, afaste as telas de sua vida e cerque-se de livros. Os personagens dos livros de Orwell e Bradbury não podiam fazer isso — mas nós ainda podemos. (Timothy Snyder. Sobre a tirania: Vinte lições do século XX para o presente).


Caput XII


Qualquer bom romance estimula nossa capacidade de pensar sobre situações ambíguas e de julgar as intenções alheias. Os irmãos Karamázov, de Dostoiévski, e A insustentável leveza do ser, de Milan Kundera, talvez sejam adequados a nosso momento. O romance Não vai acontecer aqui, de Sinclair Lewis, talvez não seja uma grande obra de arte. Complô contra a América, de Philip Roth, é melhor. Um romance conhecido por milhões de jovens americanos e que oferece um relato de tirania e resistência é Harry Potter e as relíquias da morte, de J. K. Rowling. Se você, seus amigos ou seus filhos não o entenderam assim da primeira vez, vale a pena lê-lo de novo. Cito a seguir alguns textos políticos e históricos em que se baseiam os argumentos apresentados aqui: “A política e a língua inglesa”, de George Orwell (1946); A linguagem do Terceiro Reich, de Victor Klemperer (1947); Origens do totalitarismo, de Hannah Arendt (1951); O homem revoltado, de Albert Camus (1951); Mente cativa, de Czesław Miłosz (1953); (Timothy Snyder. Sobre a tirania: Vinte lições do século XX para o presente).


Epílogo


As emoções e convicções pessoais passam a ter mais importância que os fatos objetivos, sobretudo nas escolhas políticas. Isso é particularmente verdadeiro no Brasil, dominado há anos por uma polarização na qual os fatos importam pouco ou nada, atropelados que são pelas narrativas dos campos em disputa.


A pós-verdade só pode prosperar em um ambiente no qual a indignação das pessoas diante da desonestidade e da falsidade dos políticos dá lugar à indiferença e, em seguida, à conivência. Em um mundo no qual a mentira é percebida como regra, e não exceção, é como se todos fossem mentirosos, mesmo quem fala a verdade. Assim, o que nos resta é escolher a mentira mais adequada aos nossos interesses, ou aquela que nos traz mais segurança emocional. Estabelece-se, assim, uma falsa equivalência entre todas as narrativas: um artigo de um cientista pode valer até menos que um post viralizado nas redes sociais.


Como, diante da avalanche de notícias e opiniões que nos assaltam na mídia e nas redes sociais, ficou cada vez mais difícil distinguir o verdadeiro do falso, o objetivo do subjetivo, nossas escolhas passam a ser feitas com base no sentimento de conforto e adequação ao grupo social. As convicções importam mais que os fatos; as emoções, crenças e ideologias se sobrepõem à verdade; e a reiteração de frases feitas e palavras de ordem agressivas e debochadas substitui, no debate político, a argumentação racional fundada no respeito ao outro e à diferença.


Não se trata, portanto, de mentir ou falsificar os fatos, mas de assumir que a verdade tem importância cada vez mais secundária: o que interessa é manipular e enraizar na opinião pública os valores e convicções que nos beneficiam. É por isso que, mesmo quando são desmentidos, os militantes teimam em repetir a sua versão dos fatos. Eles sabem que, na maioria das vezes, o enganosamente simples prevalece sobre o honestamente complexo. Mas, à medida que esse comportamento se espalha e os fatos alternativos ganham primazia sobre a realidade, os próprios fundamentos da democracia ficam em risco.


A mentira tem perna curta, mas a pós-verdade… essa se espalha igual a um vírus, contamina tudo e todos e cria um novo ambiente que ameaça gravemente a democracia.


Cabe muita mentira numa pós-verdade.


Manipular fatos, ocultar elementos importantes na hora de construir uma notícia, espalhar boatos para criar ondas favoráveis ou contrárias a determinadas teses não é uma novidade.


"O que separa verdade de mentira é uma linha tênue, que muitas vezes é borrada."


Quando isso acontece, verdade e mentira se confundem, perde-se a nitidez e o debate público fica embaralhado. Nesse processo se constrói o senso comum, se cristalizam posicionamentos e perde-se a racionalidade na hora de se discutir temas fundamentais para a sociedade.


A manipulação midiática nas redes sociais se constrói em cima dessa linha. Em certos momentos de maneira mais descarada em outros mais envergonhada. Quer mais descaramento do que a frase cunhada por Goebbels “uma mentira dita milhares de vezes se transforma em verdade”. O império de Hitler se ergueu sobre essas bases.


Claro que cabe discutir o que é verdade. Filosofia, psicologia, ciências sociais, biologia, física, química, enfim, todas as áreas do conhecimento se embrenham neste debate. Mas não é preciso ir tão longe para identificar uma mentira.


Mas na era da pós-verdade tudo ficou mais fácil.


"Porque a pós-verdade é um salvo conduto para a mentira. Na verdade, ela é a própria mentira, mas de roupa nova, modernizada e com uma capacidade de viralização espantosa."


A pós-verdade está tão badalada que ganhou a honra de se transformar em verbete de dicionário. A honraria foi concedida pela Universidade de Oxford. Todo ano eles escolhem um palavra nova para acrescentar à língua inglesa. Em 2016 a eleita foi “post-truth” ou pós-verdade.


pós-verdade: adjetivo – que se relaciona ou denota circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e à crenças pessoais. (tradução livre). Fonte: Oxford Dictionary (link) – https://en.oxforddictionaries.com/definition/post-truth.


Ou seja, não importa qual é o acontecimento, o que importa é como você se sente perante ele.


Para tomar a decisão de incorporar o termo ao dicionário, Oxford estudou os casos do Brexit (decisão tomada na Inglaterra para sair da União Europeia) e a eleição de Donald Trump. Em torno destes dois acontecimentos explodiram as menções à pós-verdade.


E chega a ser um paradoxo que, diante de uma sociedade vigiada 24 horas por dia, onde qualquer fato pode ser checado facilmente antes de ser propagado, o que esteja prevalecendo seja a mentira.


Ou não, talvez seja exatamente o excesso de informação, que brota numa quantidade e numa velocidade tão astronômica, que nos deixa vulneráveis e incapazes de discernir o real do imaginário. Se somarmos isso à radicalização do momento político, de extremismos em todos os campos, então relaxa e… que se danem os fatos.


"Aprendemos desde pequenos – e ensinamos depois para as nossas crianças – que mentir é feio."


Mas, enfim, chegou a pós-verdade para livrar a nossa pele e manter nosso nariz no lugar. Tá mais do que na hora de chamar a coisa pelo nome que a coisa tem: Mentira.


“As convicções são inimigas mais perigosas da verdade do que as mentiras”.(Friedrich Nietzsche)


Uma forma razoavelmente simples de explicar o neologismo é a prevalência da versão artificialmente construída sobre o fato, histórias fabricadas a partir de determinados contextos para parecerem verdades, com vistas a atingir objetivos específicos.


A forma de comunicação pelas chamadas redes sociais potencializa o uso do fenômeno da pós-verdade. No Brasil, o bolsolavismo elevou à enésima potência a capacidade de desvirtuar fatos para fazer valer sua narrativa.


Nas eleições de 2018, tínhamos um candidato que é pai de cinco filhos com três mulheres diferentes, nem todos oriundos de casamentos. Esse era Jair Bolsonaro.


Seu adversário principal, Fernando Haddad, é casado há mais de 30 anos com a mesma mulher, e pai de dois filhos com ela. No entanto, foi o primeiro quem se consolidou como candidato da família cristã.


A explicação do evidente paradoxo pode ser encontrada na comunicação, como a informação alcançava a ponta, o eleitor. As fake news são a amostra da pós-verdade na interlocução e influência via redes sociais.


A busca do bolsonarismo pelo controle da verdade por meio da comunicação em redes sociais continuou após a eleição e, recentemente, atingiu seu apogeu.


Premidos pelo que pode ser considerado o calcanhar de Aquiles da família – a ligação com as milícias –, iniciaram um processo de tentar envolver a esquerda em idêntica acusação, na evidente intenção de fazer disputa de narrativa não a partir de fatos, mas de fantásticas criações desviantes.


No último dia 12 de fevereiro, durante audiência da Câmara dos Deputados, sobre a PEC que autoriza a prisão em segunda instância, o ministro e ex-juiz Sérgio Moro, lançou a pérola de que o grupo de oposição que fez a redação de seu pacote – alcunhado erroneamente de “anticrime” – retirou as milícias do texto, favorecendo-as.


A fala tentou rebater a acusação de que Moro não investiga as milícias para proteger a família do presidente, mas o fato concreto é que não cabe nominar organizações criminosas senão em um erro grotesco de técnica legislativa.


Além disso, na redação sugerida pelo ministro, a pena para as milícias seria menor. Ainda assim, Moro deu a partida para a pós-verdade que une milicianos e a esquerda.


Ato contínuo, a morte de Adriano Magalhães da Nóbrega, ex-capitão da PM do Rio de Janeiro, conhecido como Capitão Adriano, vem a ser o mais incrível episódio de pós-verdade já produzida pelo bolsonarismo.


Foragido há um ano, acusado de comandar a mais antiga milícia do Rio, o ex-militar tem um longo histórico de ligações com Flávio Bolsonaro, senador e filho do presidente da República, e com toda a família, tendo recebido homenagem de pai e filho, em seus respectivos mandatos, como um policial exemplar, mesmo após condenações por crimes.


O fato de Adriano Nóbrega ter sido morto pela Polícia Militar da Bahia, estado governado pelo Partido dos Trabalhadores, foi o mote que o bolsonarismo precisava para criar uma versão estapafúrdia e sem qualquer base de veracidade, de ligação e interesse do partido e do Executivo local na morte do miliciano.


Em aplicação direta do comezinho ditado popular segundo o qual “a melhor defesa é o ataque”, Flávio Bolsonaro se mostra em busca de quem teria executado seu amigo miliciano, fazendo postagens de “quem matou Adriano?” e chegando ao requinte de divulgar, nesta terça-feira (18), um vídeo no Twitter expondo a autópsia do ex-capitão - vídeo que em seguida se mostraria falso - e fazendo diversas afirmações sobre tortura, execução sumária e queima de arquivo.


Seu pai, em reforço, afirma que pediu uma perícia independente: “Já tomei as providências legais para que seja feita uma perícia independente. Sem isso vocês não têm como buscar até, quem sabe, quem matou a Marielle. A quem interessa não desvendar a morte da Marielle? Uma perícia independente vai dizer se ele foi torturado, se não foi, a que distância foram os tiros, e tinham dezenas de pessoas cercando a casa. A conduta não é essa, a conduta é cercar e buscar negociação para se render”, disse o presidente.


No esforço para criar uma versão factível que os afaste das suspeitas sobre a morte do ex-capitão, os Bolsonaros, pai e filho, apostam no esquecimento coletivo de que nunca colocaram em dúvida a palavra de policiais militares em suas ações, nem mesmo as que terminam em morte de civis; que sempre foram defensores da excludente de ilicitude, que autoriza a polícia a matar sem investigação; que defendem a tortura; que são entusiastas da máxima de que “bandido bom é bandido morto”.


Esqueçamos, pois, como eles pensam de fato, porque a questão agora é virar o jogo. É saírem das cordas das suspeitas de estarem envolvidos com a morte de um ex-policial que, assim como Fabrício Queiroz, convivia de perto com a família, e possuía informações que a sociedade não sabe e não saberá.


Virar o jogo implica proclamar que a esquerda é quem tem ligação com as milícias, por mais bizarra e estúpida que possa parecer – e seja de fato – a afirmação. É uma espécie de ditadura da palavra, de quem se imagina com o poder de dizer o que são os fatos, moldá-los e modificá-los ao seu bel prazer, para que se transmutem no que lhes interessa.


Nessa guerra, não basta apenas contraditar, porque não estamos na seara da disputa democrática de ideias. A tarefa política de quem defende a adoção de critérios éticos-morais no debate público é cada dia mais desafiante e requer, sobretudo, aprendizado.


A consciência de que precisamos forjar novas ferramentas para enfrentar o cinismo militante, eleito à categoria de narrativa, representado pelo bolsolavismo.


Este é o Brasil da Pós Verdade implantada pelo lulopetismo e aperfeiçoada pelo bolsoalvismo.


Estamos vivendo a era do "Vale tudo do nós contra eles".












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